Melhores Filmes em Cartaz (atualizado constantemente)

1) “Uma Noite de 12 Anos”: Emocionante! A história real de José Mujica e outros 2 companheiros de militância contra a ditadura uruguaia, presos e torturados por mais de 1 década. As condições de sobrevivência física e emocional são postas em detalhes, especialmente os episódios psicóticos – alucinações e delírios – do protagonista, q mais tarde se tornaria presidente do país. Na sessão a q assisti, a plateia aplaudiu gritando “Bravo!”, a ponto do segurança ir conferir se era briga. Imperdível.

2) “As Herdeiras”: Belíssimo! Duas senhoras de uns 65 anos – inicialmente não fica claro se são cônjuges ou meias-irmãs – convivem numa casa  envelhecida, num modus vivendi extremamente melancólico e depressivo. A mais animada, Chiquita, tenta extenuadamente animar a outra, Chela, completamente entregue ao próprio vazio existencial. Por herdar uma dívida, Chiquita é presa, fato q expõe toda a dependência infantiloide de Chela. Em paralelo, uma vizinha antiga, solicita de modo invasivo uma carona para seu carteado diário a Chela, q mal dirigia e não tinha habilitação. A partir daí, a história dá uma virada gradual, jogando a nova “taxista” num mundo mais “erotizado” (no sentido de prazer em geral, não necessariamente sexual). Neste momento, uma paixão por uma mulher mais nova, histericamente sedutora (Freud), vitaliza o escuro dia a dia de Chela (brilhantemente retratado pelo diretor Marcele Martinessi), provocando um afastamento emocional de sua companheira Chiquita. Atuações primorosas de todas as atrizes (não há personagens masculinos no filme) e Urso de Prata no Festival de Berlim para a protagonista Ana Brun.

3) “Buscando…”: Ótimo! Thriller policial sobre o desaparecimento de uma adolescente. A investigação é feita pelo pai da menina, em parceria com a polícia. O roteiro do também diretor Aneesh Chaganty é o ponto alto do filme, intrigante e extremamente inteligente. Não chega a ser uma obra-prima como “Old Boy”, mas possui reviravoltas bastante surpreendentes. O outro destaque fica por conta da forma da narrativa, pois a história inteira é contada na tela de computadores, complexificando ainda mais a montagem e a direção.

4) “A Festa”: Bom. Uma reunião celebrativa em torno da nova Ministra da Saúde britânica – personagem vivida pela excelente Kristin Scott Thomas (da obra-prima “Lua de Fel”) -, torna-se um festival de agressividades múltiplas, revelações terríveis entre amigos e casais. Apesar das excelentes atuações (destaque para o brilhante Bruno Ganz, de “A Queda”), este, como vários outros filmes similares, não chega aos pés de “O Anjo Exterminador”, obra-prima de Buñuel, referência para muitas destas tragédias sincerocidas.

5) “A Freira”: Bom. Ainda q seja o menos assustador de todos os filmes q o aqui produtor e colaborador de roteiro James Wan (“Annabelle”, “Invocação do Mal”, “Sobrenatural”) apresenta, os apreciadores do gênero terror não perderão a viagem.

6) EXTRAS IMPERDÍVEIS:

6.1) “Relatos Selvagens” (na Mostra “20 Anos de Ibermedia”)

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“Mauro”, edição de mestre

Excelente filme de arte sobre o protagonista Mauro e outros parceiros, q organizam pequenos trambiques financeiros num cotidiano crítico da Argentina atual. Com o tempo, seus golpes começam a prosperar além das expectativas e eles então abrem uma gráfica clandestina p/ falsificar dinheiro.

O diretor Hernán Rosselli realiza seu primeiro filme de ficção com imponente maestria. Consegue o q considero um dos mais difíceis intentos em cinema: propor um roteiro com mais de 1 tema central. (Exatamente onde o grande Almodóvar patina em seu bom “Má Educação”, por exemplo.) Mauro versa sobre solitude, amor e crise financeira.

Porém, o maior brilhantismo desta obra é seu refinadíssimo rigor estético. Sua edição ímpar transforma o filme num “tour fotográfico história adentro”. O diretor/editor/roteirista/diretor de fotografia escolhe com lucidez a edição enquanto protagonista, expondo sem didatismo seu ritmo intenso de imagens, na aposta de q cada espectador forjará sua própria edição internamente. Me lembra bastante o efeito de obras do filósofo José Gil, ou mesmo de Lacan. No cinema, apesar do estilo diferente, David Lynch faz a mesma aposta numa provocação desconstrutivista em seus “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos”. A transmissão seria “não pela compreensão, mas pela recepção“.

Ao final de sua projeção no Festival, o diretor, presente na exibição, respondia a perguntas. Impactado, pedi q ele falasse sobre a edição tão marcante e afetadora. Ele então revelou q sempre foi editor (este era seu 1o filme como diretor), e comentou alguns detalhes sobre sua proposta de montagem (bela e minuciosa). Por fim, lembrei de “Nove Rainhas” e “Plata Quemada” (parcialmente próximos, no roteiro), e perguntei como ele ainda achava possível retratar a crise econômica argentina, de forma inovadora, por ser um tema já tão gasto, ao q ele respondeu: “É possível pois os filmes devem ser sobre pessoas, não sobre temas.”

Guardem Mauro, imperdível. Se não estrear, a baixar…

“Cinema bege”, a última revolução no Cinema

Assim como o clássico “Dogma 95” – movimento cinematográfico criado na Dinamarca por Lars von Trier e Thomas Vinterberg q propunha a restrição dos “truques técnicos” como novo traço estilístico -, gostaria de aqui sugerir q o último grande movimento revolucionário no cinema mundial é o q chamarei de “cinema bege”, ou mais genericamente falando, cinema nórdico, por ser o polo de tal inovação.

Bege seria o símbolo icônico de uma discursividade onde intensas emoções são retratadas numa estética radicalmente “não-latina”. Os “vermelhos de Almodóvar”, emblemas visuais tipicamente latinos, expressam tais intensidades com inegável beleza (como a “fecundação gráfica” entre o enfermeiro Benigno e a bailarina em coma em “Fale com Ela”, minha cena preferida na História do Cinema). Enquanto esta estética foi sendo incorporada pelo paladar internacional, o século 21 apresentou-nos a joia do cinema bege.

Na contramão dos vermelhos latinos, o cinema nórdico traz “O Homem sem Passado” (Aki Kaurismaki; 2001), “Histórias de Cozinha” (Bent Hamer; 2003), “Elling” (Per Christian Ellefsen; 2001), “Além do Desejo” (Pernille Fischer Christensen; 2006) “Em um Mundo Melhor” (Susanne Bier; 2010), “Caro Sr. Horten” (Bent Hamer; 2007), “Submarino” (Thomas Vinterberg; 2010), “1001 Gramas” (Bent Hamer; 2014), este último esteve em cartaz no Festival do Rio 2014.

A partir dos supracitados, fica claro q o diretor expoente do cinema bege é Bent Hamer. E o filme-alusão máxima deste novo estilo é “Histórias de Cozinha”, onde uma empresa contrata freelas para ficarem de “observadores não-participantes” no cotidiano de cozinhas de proprietários q aceitaram um dinheiro para oferecerem suas casas à pesquisa. O objetivo era descobrir “quantos passos uma pessoa dá entre cada atividade do dia-a-dia na cozinha”, para daí então criar a “cozinha perfeita”, com os eletrodomésticos dispostos da maneira mais geograficamente prática (?!…) A partir desta premissa nonsense, o diretor nos apresenta uma belíssima história do nascimento de uma amizade entre observador e observado. Numa dança silenciosa, em tons pastel (bege), nós espectadores somos inundados com jorros de afetos e afetações, numa estética extremamente sutil, q nada perde em intensidade para nenhum vermelho latino.

Diferentemente do minimalismo de um excelente cinema “oriental” (“Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera”, de Kim Ki-duk, por exemplo), q se utiliza de uma câmera microscópica para enfatizar sutilezas, este cinema nórdico transmite as intensidades dos personagens através da cena como um todo – cenário, silêncios, movimentos leves, olhares ao fundo.

Como o filósofo moçambicano José Gil – q considero o mais importante da atualidade – nos coloca em seu texto “Abrir o Corpo”, nós “ouvimos com o corpo”. Grande articulador da Psicanálise com a Dança, Gil propõe q pensemos nosso corpo como poroso, num sentido forte do termo, enfatizando assim nossa recepção de sensações (ao q ele nomeou “pequenas percepções”). São micro sutilezas, como as “inutilezas” do poeta Manoel de Barros.

Cinema bege, José Gil e Manoel de Barros, belíssimas variações discursivas sobre a beleza sutil do humano, percebido à despeito de recursos de ênfase.