Errância psicótica em “A Senhora da Van”

Tanto no senso comum quanto para a maioria dos psicanalistas, psicose é sinônimo de surtos, delírios e alucinações. No pior dos casos (infelizmente muito comum), psicose é loucura, estar fora da realidade. O projeto clínico mais comum com os psicóticos sempre aponta para uma “neurotização” da subjetividade, tomando – ainda q inconscientemente – o funcionamento psíquico do psicanalista como parâmetro de “normalidade”. Claro q há alguns analistas q fogem desse absurdo, assim como na filosofia de Deleuze, por exemplo.

Mesmo quando a psicose não é ostensivamente pejorativizada (fato raríssimo), seu potencial é extremamente subdimensionado. Vivemos num tempo de glamourização do “deixa a vida me levar”, errantes, à deriva – efeito, entre outras questões, de uma crônica falta de autoquestionamento humano. O psicanalista Philippe Julien nomeia esse estado de “paranoia comum”.

Contardo Calligaris, outro brilhante psicanalista, propõe pensarmos a errância como uma “lógica psicótica sem surtos, delírios ou alucinações”. Diz q os psicóticos funcionam sem os referenciais típicos dos neuróticos, mais disponíveis a qualquer acontecimento, não regidos pelas mesmas leis do cotidiano instituído (“normótico”). Esta disponibilidade não é uma glamourização da psicose – pois se assim fosse, daria tudo na mesma, seria apenas retórica vazia.

Grosso modo, por exemplo: diante de uma placa central na estrada, o psicótico pode olhar para outra coisa, não ver a placa. Isto, como tudo na vida, tem repercussões potentes e outras sofridas.

No brilhante filme “A Senhora da Van”, a protagonista (interpretada por Maggie Smith, soberba) vive uma mulher errante, numa mendicância motorizada. Estaciona – em definitivo – em frente à casa de um escritor (vivido por Alex Jennings, magnífico). A vizinhança londrina – extremamente obsessiva e maledicente – rapidamente a deprecia, fazendo o papel da sociedade alienada/alienante, representando uma lógica manicomial, excludente.

O escritor, igualmente londrino-obsessivo porém bastante humano, observa a nova “vizinha” atentamente. Gradualmente, vai se aproximando da senhora, com pequenos gestos de ajuda, sempre em tons extremamente contidos. A vizinha, com o simbólico nome de “Mary Shepherd”, nunca agradece (ao menos nos moldes a q estamos neuroticamente acostumados).

O excelente diretor Nicholas Hytner orquestra à perfeição o “casal” protagonista, em atuações memoráveis, impecáveis, dignas de qualquer prêmio cinematográfico. O personagem do escritor – mais humanizado – dialoga diariamente com seu alter ego, vivido como faceta um tanto mais austera, sempre com um olhar de reprovação superegoica. O escritor “toca a vida”, falando com a vizinha; enquanto o alter ego apenas observa, coletando dados para um futuro livro, olhando a vida pela janela.

Uma Londres solitária q sofre silenciosamente a ausência de contato físico, imersa num horror inconsciente à vida, sempre protegida por teorizações sobre o cotidiano: este é o cenário esplendidamente retratado pela direção meticulosa do filme.

A senhora passa a estacionar sua van no quintal do escritor, onde fica por 15 anos. A fábula acompanha a aproximação dos protagonistas, metaforizando a inclusão gradual da psicose na sociedade, processo árduo, rascante.

Paralelamente, o escritor recebe jovens rapazes à noite, numa preconceituosa Londres dos anos 70. O diretor acerta em cheio ao não aprofundar esta parte da trama, deixando bem clara sua opção de figura e fundo.

Enfim, o resultado é um brilhante tratado sobre errância psicótica, obsessão londrina, solidão resignada, vida teorizada à distância, exclusão e inclusão. Apesar dos tons de fábula, não nos poupa dos odores fétidos de nossa demasiada humanidade.

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Freud, Dostoiévski, Kafka/Welles e Masud Khan nos filmes “O Duplo” e “O Processo”

Tive uma grata surpresa ao assistir a “O Duplo”, baseado no romance homônimo de Dostoiévski. Adaptação muito interessante, fotografia de ótimo nível em tons cinza escuro. O protagonista começa perdendo seu lugar num metrô vazio para um estranho, q rapidamente vamos percebendo ser seu alter ego, versão proativa e super autoconfiante (oposição imaginária à sua realidade de inércia e apagamento).

Inicialmente, este “outro” personagem soa como um parceiro alvissareiro, estimulando seu crescimento na empresa onde trabalha. O ambiente profissional é surrealisticamente burocrático, lembrando “O Processo” (obra-prima de Kafka, adaptado ao cinema por Orson Welles) e “O Castelo” (também do escritor tcheco), cheio de “pequenos poderes” em forma de labirinto intransponível. Ao alter ego, no entanto, tudo é facilitado, as portas sempre se abrem, as pessoas sorriem e mostram reconhecimento por seus atos.

Portanto, este “outro” inicialmente faz a função de “ideal do eu” (conceito freudiano referente às nossas prospecções e expectativas subjetivas, para dizer de forma sucinta), apresentando um caminho de norteamento evolutivo. Aos poucos, esta alteridade toma a forma de supereu tirânico (Freud), massacrando o protagonista, empurrando-o a uma espécie de “zero absoluto”, metaforicamente um suicídio. Novamente, a analogia com o “Sr. K” de “O Processo” é direta. Melanie Klein, q deixou seu nome marcado na história da Psicanálise, falava da “posição esquizo-paranoide”, quando o sujeito teme um aniquilamento proveniente de paradeiro desconhecido, questão bastante patente na angústia do protagonista de “O Duplo”.

Enquanto Freud dizia q o supereu / ideal do eu possui 2 facetas – a positiva, como referência evolutiva, e a negativa, de exigência tirânica -, Daniel Kupermann prefere pensar o supereu apenas como função negativa e opressora, separando-o do ideal do eu, tendo este a positiva função de referencial expansivo. Considero as duas interpretações bastante próximas, porém a de Kupermann me parece mais interessante psicanaliticamente. No filme, o protagonista fica sem espaço diante de seu alter ego desde o início, portanto este esmagamento poderia ser considerado uma projeção de um supereu implacável, mórbido.

A estética lúgubre de “O Duplo” e de “O Processo”, assim como de boa parte dos filmes de Ingmar Bergman, explicita o peso constante e massacrante de uma Lei interna impossível de ser seguida, auditada e punida eternamente através de um sentimento de culpa muitas vezes só dissolvido pelo humor ou pela morte. Ou por um processo de elaboração em sessões de análise ou através da arte.

Por fim, o psicanalista Masud Khan utiliza o conceito de “duplo” (já apresentado por Freud na obra-prima “O Estranho”), como questão clínica observada em muitos de seus analisandos. Ele percebia q era comum q as pessoas chegassem à análise demandando q suas facetas desagradáveis fossem exorcizadas, a fim de q a parte “mais interessante” ou “bem sucedida” prevalecesse com exclusividade. Na contramão desta expectativa, Masud trabalha a coexistência de todas as facetas subjetivas, num paradoxo includente q venha a permitir uma espécie de diálogo entre essas partes, articulando as diferenças sem q uma suprima a outra.

A coexistência em paradoxo de nossas diferentes facetas subjetivas, portanto, seria a única condição demasiadamente humana possível, ainda q dificilmente caiba numa lógica de vitrine “Fakebook” cor de rosa..