A Foto do Trauma (“Na Ventania”)

Há muito tempo eu não vivia uma sessão memorável no cinema, daquelas de alterar todo o funcionamento corporal, lágrimas e silêncio, estupefação plena, como o q ocorreu ao assistir à obra-prima “Na Ventania”. Dos em torno de 100 filmes q consigo assistir por ano, muitos são excelentes. Nesses, encontro apenas uns 5 maravilhosos, em média; 1 ou 2 desses, considero obras-primas. “Na Ventania” é um degrau acima, é um dos inesquecíveis, eternos, a entrar na lista dos melhores da vida, algo q demora alguns anos a surgir…

Fotografia poética. Poderia ficar com apenas esta tosca tentativa de “definição”. Isto pq o delicado poder da fotografia enquanto canal de transmissão especialmente tende a calar, a praticamente impedir o acesso sempre capenga das palavras. Poderia-se afirmar q todas as expressões artísticas vão aonde o verbo não alcança. Ok, porém costumeiramente nos aventuramos a comentar filmes ou livros, tal como aqui neste blog. Artes como Pintura, Fotografia e Dança talvez provoquem um outro percurso emocional, por onde o dito tem pouco ou nenhum recurso…

Enfim, já q essa ventania me assoprou a escrever, q isso seja o q puder. O diretor Martti Helde (Estônia) expõe de forma dura, seca e nada apelativa a dor da Guerra (tema já tão batido no cinema). Para tal, parte das cartas de uma mulher (estudante de filosofia, isso faz diferença) q foi levada a um campo de trabalho forçado com sua filha pequena, a seu marido numa prisão de guerra.

A brilhante câmera do diretor congela cada cena (os atores ficam parados) e a percorre muito vagarosamente, frame a frame, trazendo uma luz do insuportável ao trauma, ao absurdo (ao Real de Lacan, para fazer um paralelo psicanalítico). Com isso, inscreve a dor impossível como possível, ao menos parcialmente, é claro.

A metáfora do traumático, “paralisada” pela fotografia, traz ao espectador uma tese sobre a memória humana. De q forma – pensaria o diretor do filme – a emoção traumática tatua a carne do ser humano durante a Guerra? Exatamente através de fotografias, assim o bárbaro marca em definitivo o corpo subjetivo, inscrevendo o surrealismo das imagens sem representação outra, apenas um choque, como um flash das máquinas mais antigas.

Assim, o diretor de “Na Ventania” nos brinda com uma aula de fazer cinema, um jorro de sensibilidade, uma hipótese psíquica sobre a memória durante a Guerra (aqui, o holocausto soviético). Martti Helde não diferencia as dores – da separação da família à morte concreta, das sofridas imagens dos outros às de si mesmo -, apresenta-as todas no mesmo vagar, na toada do insuportável q tem q caber. Outros diretores, como o magistral Alain Resnais (“Hiroshima, Mon Amour”, “Noite e Neblina”) já haviam realizado obras marcantes através da fotografia e sobre o mesmo tema do absurdo da Guerra, mas arrisco dizer q aqui foi inventada uma outra forma de criação cinematográfica. Com o bônus de uma tese metapsicológica sobre a memória do traumático. Brilhante, arrebatador. Tato pra atuar o tatuar.

 

15 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos

Sempre resisti à ideia de fazer este tipo de lista dos “melhores”. Sempre achei q isso não servia pra praticamente nada, apenas um exercício de vaidade pública. Mudei de ideia, hj penso q pode ser apenas uma troca de experiências e sensações, prazerosa e despretensiosa.

Listar os melhores filmes sempre provoca justos questionamentos, como: “Faltou o Glauber!!”, “Sem Nelson Pereira dos Santos não faz sentido.”. Enfim, só o q sempre resta é fazer algo pessoal. Então, o critério aqui será: os 15 brasileiros q mais me afetaram, impactaram. Não vou discutir aspectos técnicos, nem qualidade artística do diretor ou das atuações, especificamente. Tudo ficará incluído nesta categoria escolhida, nomeada “afetação/impacto/atravessamento”. Por último, “Por que 15 e não 10, ou 50?”: pq este número acabou sendo resultado dos q não consegui excluir. Os restantes q também adorei estão na Grande Lista (ler mais no post “Grande Lista de Filmes (atualizada constantemente)”, aqui neste blog.

Sem mais delongas, aqui vão os 15, em ardem de afetação, c/ breves comentários:

1) “Janela da Alma”: Maravilhoso, poético, irretocável. João Jardim e Walter Carvalho dirigem Wim Wenders, Saramago, Manoel de Barros, Oliver Sacks, Hermeto Pascoal, João Ubaldo, etc. Emocionante, depoimentos extremamente inteligentes e sensíveis.

2) “Vinícius”: Além de Vinícius de Moraes ser um poeta dos maiores, o diretor Miguel Faria Jr. apresenta de forma preciosa sua história, parceiros, idiossincrasias, polêmicas, intensidades. Inúmeras falas inesquecíveis, como as de Ferreira Gullar, Maria Bethânia, Chico Buarque e Tonia Carrero. Além de interpretações tocantes de suas músicas, como a de Mônica Salmaso. O único senão é a presença tosca da fraquíssima Camila Morgado.

3) “Elena”: Obra-prima de máxima sensibilidade de Petra Costa, a melhor diretora brasileira. Filme radicalmente autoral, para além de ser um doc autobiográfico. O atravessamento de sua dor pela perda da irmã Elena é vivido visceralmente, sem concessões, até q possa, enfim, voltar a respirar. Petra filma à perfeição, tanto dor, quanto amor, melancolia (da mãe) e a própria sublimação de seu fantasma.

4) “Moscou”: A obra-prima máxima do melhor documentarista do Brasil, e um dos mais importantes do mundo: Eduardo Coutinho. Seguindo a potência de seu filme anterior “Jogo de Cena”, outra obra-prima, o diretor aprofunda sua criatividade e sensibilidade artística filmando o Grupo Galpão de teatro ensaiar uma peça de Tchekhov, q nunca seria exibida ao público. Os atores se revezam ensaiando papéis diferentes, o q provoca um jorro de afetação no espectador, pois este recurso lança cada personagem com muito mais força, transmitido por mais de um ator. Incrível.

5) “Ônibus 174”: Excelente doc de José Padilha, um de nossos melhores diretores. Contundente, sério e minucioso. A tragédia do sequestro de um ônibus na Zona Sul do Rio de Janeiro sendo contada de forma a retratar a “invisibilidade” dos meninos de rua, e os horrores de suas história de vida. O sequestrador, na infância, assistiu à sua mãe ser degolada na porta de sua casa, e anos depois esteve entre os meninos da chamada “chacina da Candelária”, onde 8 adolescentes foram gratuitamente assassinados por policiais militares. No filme, destaque para a cena em q o sequestrador, mesmo drogado, liberta um jovem universitário, para q este possa estudar.

6) “Moacir – Arte bruta”: Extremamente sensível. O diretor Walter Carvalho atinge a perfeição ao trazer um retrato tocante de um artista q contrariou o “pensamento” preconceituoso de sua vila (São Jorge), para inscrever suas pinturas no cenário mundial (foi descoberto por turistas alemães). Seus temas – sexualidade e diabos – causam horror na hipocrisia daquela sociedade, q quase consegue encarcerá-lo, literalmente. A sensibilidade de seu pai e de um ou outro na vila acabam por sustentar seus direitos humanos. Sua mãe, psicotizante, enfiava concretamente seu peito no garoto (Moacir tinha então 2 anos), quando este já não aceitava mais.  É um homem da resistência, surdo de um ouvido, analfabeto e fanho, mas mais belo e forte do q a maioria das pessoas q já conheci. Já utilizei este filme várias vezes em aulas sobre a potência da psicose. Cheguei a visitar o próprio Moacir em São Jorge (Goiás), e encontrei um cenário triste: uma doença degenerativa o impede de continuar pintando. Terrível… Ainda assim, ele foi super gentil. Eternamente um resistente.

7) “Separações”: O melhor de todos os filmes de Domingos Oliveira, um dos melhores diretores brasileiros. Com um escracho generalizado um tanto à la Woody Allen, o humor deste filme é ímpar. Reviravoltas com simplicidade e inteligência nos diálogos, Domingos arrasa todo e qualquer maniqueísmo, trazendo o desamparo e as tentações com igual intensidade entre homem e mulher. O respeito não panfletário à igualdade grita nos conflitos e agonias poéticas e histriônicas dos personagens, flertando com o patético mas encerrando na beleza demasiadamente humana dos casais.

8) “O Invasor”: Belíssimo e extremamente preciso trabalho do diretor Beto Brant. Um tratado de Psicanálise sobre a relação da Neurose com a Perversão. Paulo Miklos (da banda “Titãs”) atua à perfeição como um matador q resolve “frequentar” a firma de 2 sócios q o contrataram para matar o terceiro. Falas inesquecíveis, olhares e tensões de poder minuciosamente colocados. Obra-prima irretocável.

9) “Nome Próprio”: O diretor Murilo Salles atinge o brilhantismo nesta obra impressionante, com um título perfeito. O nomadismo da protagonista incomoda o público, causando em muitos a sensação de q as escolhas da personagem seriam bizarras. Sua liberdade – não glamourizada – evidencia os aprisionamentos até dos espectadores menos preconceituosos. Virtuosismo notável da direção. Ler mais no post “Estilo X Pejorativismo (sobre ‘Nome Próprio’)”, aqui neste blog.

10) “O Cheiro do Ralo”: O maior trabalho da vida de Selton Mello, um dos melhores atores brasileiros (chego a considerar q este filme, especificamente, não seria possível com outro ator). Articular traços psicóticos e perversos num único personagem – tarefa praticamente impossível – foi o q o diretor Heitor Dhalia conseguiu realizar, com precisão impressionante, na parceria com Selton.

11) “Jogo de Cena”: Mais uma obra-prima do diretor Eduardo Coutinho. “Documentário” sobre as histórias de vida de algumas personagens, apresentadas subsequentemente pelas próprias, por algumas atrizes conhecidas – as brilhantes Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão – e outras desconhecidas. Essa “bagunça” desconstrutiva provoca com bastante intensidade a desorganização do espectador. Ficam, entre outras, as questões: o q é o autêntico? O q é ficção? Estes são pontos bastante centrais na filmografia do mestre Eduardo Coutinho.

12) “Doutores da Alegria”: Documentário belíssimo e extremamente emocionante da diretora Mara Mourão, sobre o grupo de palhaços q criaram um trabalho dificílimo com crianças portadoras de câncer. Minuciosamente, os palhaços pensam cada sutileza – a entrada e a saída do quarto, a recusa da criança, a função do nariz vermelho, da música -, inclusive fazendo um grupo de estudos de filosofia, discutindo Spinoza, etc. A sensibilidade e a inteligência dos integrantes do grupo é absurda. A chorar muitas lágrimas de dor e alegria…

13) “Dzi Croquettes”: Excelente documentário dos diretores Raphael Alvarez e Tatiana Issa, sobre o grupo de teatro e dança multi performático. O tema sexualidade era exposto radicalment –  para além da chamada “opção sexual”. A intensidade e genialidade dos membros fez com q não sofressem praticamente nenhuma repressão na época da ditadura. Criativo ao extremo na transmissão da arte. Destaque para os depoimentos de Liza Minnelli e Miéle.

14) “O Som ao Redor”: Filme extremamente denso, desviando nossa atenção dos eixos viciados do nosso olhar, para outras perspectivas. Para além do silêncio – já bastante bem explorado na história do cinema -, o diretor Kleber Mendonça Filho de fato mira o entorno do cotidiano. E o faz com rara qualidade, insistentemente, até q nos desapegamos em definitivo de nossas tendenciosas perspectivas anteriores. A história, geralmente central, fica deslocada para a margem.

15) “Tropa de Elite”: Poderia ser apenas um filme policial intenso e dinâmico, mas vai muito além. Multifacetada trama de costumes, apresenta uma perspectiva de bastidores do sistema policial brasileiro. Com precioso senso de humor, imortalizou bordões como “Quer rir, tem q fazer rir, mano!”, “Quer me fuder, me beija!” e “Cada cachorro q lamba sua caceta!”. Algumas críticas de superficialidade maniqueísta acusaram o diretor José Padilha de traçar um perfil tendencioso pró BOPE, ao q ele retrucou: “Quando fiz ‘Ônibus 174’, disseram q sou pró bandidagem; agora, com o ‘Tropa’, dizem q sou pró polícia. Acho q sou esquizofrênico.”. Pra completar, a ótima atuação de Wagner Moura.

Arte Noir à la Tarantino / Robert Rodriguez em “Garota Sombria Caminha pela Noite”

Uma grata surpresa este filme americano de uma diretora estreante, Ana Lily Amirpour, inglesa de pais iranianos. Estética noir de alta qualidade numa cidade industrial no Irã praticamente abandonada, “Bad City” (referência direta ao clássico “Sin City”, de Robert Rodriguez, a mais forte alusão do filme como um todo). As influências / homenagens são múltiplas e prazerosas: o protagonista lembra um James Dean mais tímido e discreto; as cenas de tensão entre a vampira e cada possível vítima são à moda western spaghetti; a trilha lembra Ennio Morricone nos clássicos de Sergio Leone, e noutros momentos homenageia os anos 80; o humor é muito ao estilo Tarantino. Resultado: um delicioso filme de arte do cinema dito fantástico.
A história, apesar de menos fundamental do q a forma, tem seu valor para compor a obra. Uma vampira no Irã (q tenderia a ser uma bizarrice) mata transeuntes noturnos, geralmente perdidos. Aos poucos, percebe-se q ela faz escolhas. O machismo de um traficante caricato expõe a falta de lugar da mulher naquele país. O pai do protagonista, viciado em heroína, flerta c/ a morte diariamente. Um menino expõe a carência de vínculos da cidade q morre (também metaforizada por um valão onde os mortos são jogados, ficando indefinidamente lá, em sua indigência sem saída). A prostituta de 30 anos vive a submissão masoquista à desesperança da mulher descasada naquela sociedade. A cidade padece na mórbida dependência de apenas uma única indústria ativa. Os últimos resquícios de amor e afeto são vividos até a última gota, tragicamente. O último a sair apague a luz. As trevas de uma vampira, portanto, são metáfora precisa, assim como a aridez de um “velho oeste”.
Quanto aos detalhes psicanalíticos, o modo de sedução não assumida ou sustentada de personagens histéricos (nunca confundir com gritaria ou surto, como entendidos no senso comum), assim como sua carência também desconhecida de si mesmos, formam um quadro marcante e recorrente nas tramas relacionais da história.
Enfim, um belo filme de arte a saborear, em seus mínimos detalhes, ao ritmo de um menu-degustação.

Freud, Dostoiévski, Kafka/Welles e Masud Khan nos filmes “O Duplo” e “O Processo”

Tive uma grata surpresa ao assistir a “O Duplo”, baseado no romance homônimo de Dostoiévski. Adaptação muito interessante, fotografia de ótimo nível em tons cinza escuro. O protagonista começa perdendo seu lugar num metrô vazio para um estranho, q rapidamente vamos percebendo ser seu alter ego, versão proativa e super autoconfiante (oposição imaginária à sua realidade de inércia e apagamento).

Inicialmente, este “outro” personagem soa como um parceiro alvissareiro, estimulando seu crescimento na empresa onde trabalha. O ambiente profissional é surrealisticamente burocrático, lembrando “O Processo” (obra-prima de Kafka, adaptado ao cinema por Orson Welles) e “O Castelo” (também do escritor tcheco), cheio de “pequenos poderes” em forma de labirinto intransponível. Ao alter ego, no entanto, tudo é facilitado, as portas sempre se abrem, as pessoas sorriem e mostram reconhecimento por seus atos.

Portanto, este “outro” inicialmente faz a função de “ideal do eu” (conceito freudiano referente às nossas prospecções e expectativas subjetivas, para dizer de forma sucinta), apresentando um caminho de norteamento evolutivo. Aos poucos, esta alteridade toma a forma de supereu tirânico (Freud), massacrando o protagonista, empurrando-o a uma espécie de “zero absoluto”, metaforicamente um suicídio. Novamente, a analogia com o “Sr. K” de “O Processo” é direta. Melanie Klein, q deixou seu nome marcado na história da Psicanálise, falava da “posição esquizo-paranoide”, quando o sujeito teme um aniquilamento proveniente de paradeiro desconhecido, questão bastante patente na angústia do protagonista de “O Duplo”.

Enquanto Freud dizia q o supereu / ideal do eu possui 2 facetas – a positiva, como referência evolutiva, e a negativa, de exigência tirânica -, Daniel Kupermann prefere pensar o supereu apenas como função negativa e opressora, separando-o do ideal do eu, tendo este a positiva função de referencial expansivo. Considero as duas interpretações bastante próximas, porém a de Kupermann me parece mais interessante psicanaliticamente. No filme, o protagonista fica sem espaço diante de seu alter ego desde o início, portanto este esmagamento poderia ser considerado uma projeção de um supereu implacável, mórbido.

A estética lúgubre de “O Duplo” e de “O Processo”, assim como de boa parte dos filmes de Ingmar Bergman, explicita o peso constante e massacrante de uma Lei interna impossível de ser seguida, auditada e punida eternamente através de um sentimento de culpa muitas vezes só dissolvido pelo humor ou pela morte. Ou por um processo de elaboração em sessões de análise ou através da arte.

Por fim, o psicanalista Masud Khan utiliza o conceito de “duplo” (já apresentado por Freud na obra-prima “O Estranho”), como questão clínica observada em muitos de seus analisandos. Ele percebia q era comum q as pessoas chegassem à análise demandando q suas facetas desagradáveis fossem exorcizadas, a fim de q a parte “mais interessante” ou “bem sucedida” prevalecesse com exclusividade. Na contramão desta expectativa, Masud trabalha a coexistência de todas as facetas subjetivas, num paradoxo includente q venha a permitir uma espécie de diálogo entre essas partes, articulando as diferenças sem q uma suprima a outra.

A coexistência em paradoxo de nossas diferentes facetas subjetivas, portanto, seria a única condição demasiadamente humana possível, ainda q dificilmente caiba numa lógica de vitrine “Fakebook” cor de rosa..

Travessias do desamparo (“Livre”, “Na Natureza Selvagem” e “Elena”)

Sem sombra de dúvida, “Elena” e “Na Natureza Selvagem” têm mais qualidade q “Livre”. Porém, este último possui vários méritos surpreendentes. Já valeria por suscitar a articulação c/ essas outras obras tão marcantes no cinema.
“Elena”, provavelmente o q vai mais fundo na questão da dor e da busca por voltar a respirar, é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Petra (a diretora) filma sua história c/ sua irmã Elena, q cometeu suicídio quando Petra ainda era menina. A beleza do amor entre as irmãs é expressa à perfeição, sem o menor traço de pieguice ou de “linguagem interna” não compreensível ao espectador. Petra transmite o atravessamento de sua dor pela perda da irmã, buscando alguma possível e humana sublimação (termo q Freud retirou c/ ótima simplicidade da química: “passagem do estado sólido para o gasoso”). A diretora vai à própria infância para arrancar visceralmente seus pedaços mortos. Sua autenticidade corajosamente ímpar impacta e derruba qualquer um q tenha disponibilidade ao sentir (assim como o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi cunhou seu “sentir com”, para falar de sua afetação com seus analisandos). Petra arrisca sua sanidade em busca de algo mais q sobreviver – lembrando o poético trecho “consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”, da belíssima música de Renato Russo (“Sereníssima”). Atravessa seu fantasma através da arte, assim como tenta o pintor Gorky, personagem do filme “Ararat”, obra-prima de Atom Egoyan. Através da Psicanálise, através da Arte, o mergulho pelo trágico permite uma possibilidade árida, sem garantia alguma.
Em “Na Natureza Selvagem”, Sean Penn expressa magistralmente a busca de um jovem por se livrar da opressão superegoica introjetada pelos valores impostos por seus pais. Conquista o direito a estudar em Harvard (sonho/exigência de seus pais), queima carro e dinheiro – prêmios q eles lhe dão -, e parte para ficar algum tempo no Alasca, totalmente sozinho. Conhece algumas pessoas extremamente interessantes e sensíveis ao longo do percurso, porém nunca se disponibiliza a mais q um “flerte”, pois está fechado em sua reta intenção. O q ele não percebe é q sempre levamos o trágico na mochila, pois não há apagamento possível das memórias afetivas; as milhas de distância podem no máximo ser um paliativo interessante enquanto não é possível enfrentar o fantasma, cortejar a insanidade q Petra desperta de e em Elena, no outro filme. A onipotência/arrogância dos pais do garoto o acompanha ao Alasca, escondida, até ressurgir em sua morte, quando ele acha q pode sobreviver no gélido deserto com apenas um livrinho de plantas comestíveis. Ousado como gente grande, ingênuo como um menininho q foge p/ a casa de árvore no quintal. O “retorno do recalcado”, como nos diz Freud, é implacável, inexorável.
Enfim, voltando ao filme “Livre”, a personagem de Reese Witherspoon busca uma andança de 3 meses numa severa trilha, deserto e neve incluídos. Durante seu percurso, visita sua história c/ a mãe, recentemente morta de um câncer súbito. “Corteja” seus tempos de drogadição e promiscuidade (obviamente sem moralismos aqui), e seus episódios de raiva da mãe, por esta ter escolhido um marido alcoólatra e violento. Machuca seu corpo fisicamente na trilha, como tantas vezes vi pessoas cortando seus pulsos para tentar expurgar suas dores emocionais. Das drogas, passando pela promiscuidade, até o corpo ferido na trilha, a protagonista percorre a “travessia de seu fantasma” (termo bem colocado por Lacan), tentando rasgar sem arrebentar. Afinal, pergunta-se: “Nunca me redimirei?”, “Ou já me redimi?”, “Errei ao me machucar?”, “Ou precisei disto para chegar noutro lugar?”
Portanto, “Livre” merece todo o crédito pelo uso apenas comedido dos clichês hollywoodianos, por alguns questionamentos profundos e por evocar outros filmes de tamanha sensibilidade.

“Mauro”, edição de mestre

Excelente filme de arte sobre o protagonista Mauro e outros parceiros, q organizam pequenos trambiques financeiros num cotidiano crítico da Argentina atual. Com o tempo, seus golpes começam a prosperar além das expectativas e eles então abrem uma gráfica clandestina p/ falsificar dinheiro.

O diretor Hernán Rosselli realiza seu primeiro filme de ficção com imponente maestria. Consegue o q considero um dos mais difíceis intentos em cinema: propor um roteiro com mais de 1 tema central. (Exatamente onde o grande Almodóvar patina em seu bom “Má Educação”, por exemplo.) Mauro versa sobre solitude, amor e crise financeira.

Porém, o maior brilhantismo desta obra é seu refinadíssimo rigor estético. Sua edição ímpar transforma o filme num “tour fotográfico história adentro”. O diretor/editor/roteirista/diretor de fotografia escolhe com lucidez a edição enquanto protagonista, expondo sem didatismo seu ritmo intenso de imagens, na aposta de q cada espectador forjará sua própria edição internamente. Me lembra bastante o efeito de obras do filósofo José Gil, ou mesmo de Lacan. No cinema, apesar do estilo diferente, David Lynch faz a mesma aposta numa provocação desconstrutivista em seus “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos”. A transmissão seria “não pela compreensão, mas pela recepção“.

Ao final de sua projeção no Festival, o diretor, presente na exibição, respondia a perguntas. Impactado, pedi q ele falasse sobre a edição tão marcante e afetadora. Ele então revelou q sempre foi editor (este era seu 1o filme como diretor), e comentou alguns detalhes sobre sua proposta de montagem (bela e minuciosa). Por fim, lembrei de “Nove Rainhas” e “Plata Quemada” (parcialmente próximos, no roteiro), e perguntei como ele ainda achava possível retratar a crise econômica argentina, de forma inovadora, por ser um tema já tão gasto, ao q ele respondeu: “É possível pois os filmes devem ser sobre pessoas, não sobre temas.”

Guardem Mauro, imperdível. Se não estrear, a baixar…

“Cinema bege”, a última revolução no Cinema

Assim como o clássico “Dogma 95” – movimento cinematográfico criado na Dinamarca por Lars von Trier e Thomas Vinterberg q propunha a restrição dos “truques técnicos” como novo traço estilístico -, gostaria de aqui sugerir q o último grande movimento revolucionário no cinema mundial é o q chamarei de “cinema bege”, ou mais genericamente falando, cinema nórdico, por ser o polo de tal inovação.

Bege seria o símbolo icônico de uma discursividade onde intensas emoções são retratadas numa estética radicalmente “não-latina”. Os “vermelhos de Almodóvar”, emblemas visuais tipicamente latinos, expressam tais intensidades com inegável beleza (como a “fecundação gráfica” entre o enfermeiro Benigno e a bailarina em coma em “Fale com Ela”, minha cena preferida na História do Cinema). Enquanto esta estética foi sendo incorporada pelo paladar internacional, o século 21 apresentou-nos a joia do cinema bege.

Na contramão dos vermelhos latinos, o cinema nórdico traz “O Homem sem Passado” (Aki Kaurismaki; 2001), “Histórias de Cozinha” (Bent Hamer; 2003), “Elling” (Per Christian Ellefsen; 2001), “Além do Desejo” (Pernille Fischer Christensen; 2006) “Em um Mundo Melhor” (Susanne Bier; 2010), “Caro Sr. Horten” (Bent Hamer; 2007), “Submarino” (Thomas Vinterberg; 2010), “1001 Gramas” (Bent Hamer; 2014), este último esteve em cartaz no Festival do Rio 2014.

A partir dos supracitados, fica claro q o diretor expoente do cinema bege é Bent Hamer. E o filme-alusão máxima deste novo estilo é “Histórias de Cozinha”, onde uma empresa contrata freelas para ficarem de “observadores não-participantes” no cotidiano de cozinhas de proprietários q aceitaram um dinheiro para oferecerem suas casas à pesquisa. O objetivo era descobrir “quantos passos uma pessoa dá entre cada atividade do dia-a-dia na cozinha”, para daí então criar a “cozinha perfeita”, com os eletrodomésticos dispostos da maneira mais geograficamente prática (?!…) A partir desta premissa nonsense, o diretor nos apresenta uma belíssima história do nascimento de uma amizade entre observador e observado. Numa dança silenciosa, em tons pastel (bege), nós espectadores somos inundados com jorros de afetos e afetações, numa estética extremamente sutil, q nada perde em intensidade para nenhum vermelho latino.

Diferentemente do minimalismo de um excelente cinema “oriental” (“Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera”, de Kim Ki-duk, por exemplo), q se utiliza de uma câmera microscópica para enfatizar sutilezas, este cinema nórdico transmite as intensidades dos personagens através da cena como um todo – cenário, silêncios, movimentos leves, olhares ao fundo.

Como o filósofo moçambicano José Gil – q considero o mais importante da atualidade – nos coloca em seu texto “Abrir o Corpo”, nós “ouvimos com o corpo”. Grande articulador da Psicanálise com a Dança, Gil propõe q pensemos nosso corpo como poroso, num sentido forte do termo, enfatizando assim nossa recepção de sensações (ao q ele nomeou “pequenas percepções”). São micro sutilezas, como as “inutilezas” do poeta Manoel de Barros.

Cinema bege, José Gil e Manoel de Barros, belíssimas variações discursivas sobre a beleza sutil do humano, percebido à despeito de recursos de ênfase.