Melhores Filmes em Cartaz (atualizado constantemente)

1) “Marvin”: Obra-prima. A história de um menino desde o bullying no início da adolescência, até o início de sua vida profissional, como ator de teatro. A diretora e roteirista Anne Fontaine cria uma grande quantidade de personagens e cenários, todos extremamente apurados em forma e conteúdo. As tensões relacionais são desenhadas à perfeição, com excelentes atuações de todo o elenco. Entre tantas qualidades do filme, destaque para o anti-maniqueísmo constante, através do qual as ambivalências de cada personagem são apresentadas, com delicadeza ímpar. Para coroar, Isabelle Huppert – a melhor atriz do mundo – interpreta ela mesma. Imperdível!

2) “As Herdeiras”: Belíssimo! Duas senhoras de uns 65 anos – inicialmente não fica claro se são cônjuges ou meias-irmãs – convivem numa casa  envelhecida, num modus vivendi extremamente melancólico e depressivo. A mais animada, Chiquita, tenta extenuadamente animar a outra, Chela, completamente entregue ao próprio vazio existencial. Por herdar uma dívida, Chiquita é presa, fato q expõe toda a dependência infantiloide de Chela. Em paralelo, uma vizinha antiga, solicita de modo invasivo uma carona para seu carteado diário a Chela, q mal dirigia e não tinha habilitação. A partir daí, a história dá uma virada gradual, jogando a nova “taxista” num mundo mais “erotizado” (no sentido de prazer em geral, não necessariamente sexual). Neste momento, uma paixão por uma mulher mais nova, histericamente sedutora (Freud), vitaliza o escuro dia a dia de Chela (brilhantemente retratado pelo diretor Marcele Martinessi), provocando um afastamento emocional de sua companheira Chiquita. Atuações primorosas de todas as atrizes (não há personagens masculinos no filme) e Urso de Prata no Festival de Berlim para a protagonista Ana Brun.

3) “Você nunca Esteve Realmente Aqui”: Excelente! Prêmios de Roteiro e Ator (Joaquin Phoenix, do irretocável “Ela”) no Festival de Cannes. O protagonista busca resgatar meninas do tráfico sexual pedófilo. Entremeado por suas reminiscências traumáticas, vivencia o paradoxo da frieza de um matador, com a compaixão indignada contra a violência infantil. Esta “travessia do fantasma” (Lacan) é brilhantemente montada pela diretora Lynne Ramsay, e interpretada à perfeição por Phoenix. Merecidamente premiados.

4) “No Intenso Agora”: Excelente! Muito inteligente e abrangente, o doc de João Moreira Salles articula (através de imagens de arquivo) o Maio de 68 na França com a Primavera de Praga, e os cenários políticos de Brasil e China à mesma época. Em paralelo tb, seu amor e sua crítica à sua mãe (alegre, porém alienada naquele importante contexto histórico-político mundial). Ousado, honesto, consistente. Frases marcantes, como: “Cuidado com seus ouvidos. Eles têm paredes.”, ou “Maio de 68 deve menos a Karl Marx do q ao Surrealismo.”

5) “Buscando…”: Ótimo! Thriller policial sobre o desaparecimento de uma adolescente. A investigação é feita pelo pai da menina, em parceria com a polícia. O roteiro do também diretor Aneesh Chaganty é o ponto alto do filme, intrigante e extremamente inteligente. Não chega a ser uma obra-prima como “Old Boy”, mas possui reviravoltas bastante surpreendentes. O outro destaque fica por conta da forma da narrativa, pois a história inteira é contada na tela de computadores, complexificando ainda mais a montagem e a direção.

6) “As Boas Maneiras”: Ótimo. Uma saborosa e grande surpresa assistir a um filme brasileiro de suspense, e com efeitos especiais de real qualidade. Atuações marcantes em papéis difíceis de Marjorie Estiano e, especialmente, Isabél Zuaa. Os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra ousaram o tempo inteiro, integrando estilos diferentes – suspense/fantasia e drama -, ponto onde já derraparam nomes como Woody Allen (no superestimado “Match Point”) e Almodóvar (em “Má Educação”, q perdeu a chance de ser uma obra-prima). Além disso, o roteiro discute de forma interessante e não lugar-comum preconceitos vindos das classes altas e das baixas, exibindo sem maniqueísmo o quanto o medo do ser humano evoca suas emoções mais primitivas, como ódio e violência. Como se não bastasse todo este conteúdo, ainda sobra espaço para um tesão homossexual q está para além do dito “gênero”. Pra quem gosta de referências, algumas cenas lembram momentos de “A Marca da Pantera” e outras o excelente nórdico “Deixe Ela Entrar”.

7) “Ferrugem”: Bom. Vídeo vaza cena sexual de uma adolescente, causando repercussões pesadas, bullying generalizado. Lembrando a “polêmica série “13 Reasons Why”, discute culpas, garotices e perversões, inclusive dos pais (um deles interpretado pelo excelente Enrique Diaz, como um pai de emoções embotadas). Apesar das ótimas atuações de todos, o filme não chega a empolgar tanto.

8) “A Festa”: Bom. Uma reunião celebrativa em torno da nova Ministra da Saúde britânica – personagem vivida pela excelente Kristin Scott Thomas (da obra-prima “Lua de Fel”) -, torna-se um festival de agressividades múltiplas, revelações terríveis entre amigos e casais. Apesar das excelentes atuações (destaque para o brilhante Bruno Ganz, de “A Queda”), este, como vários outros filmes similares, não chega aos pés de “O Anjo Exterminador”, obra-prima de Buñuel, referência para muitas destas tragédias sincerocidas.

9) EXTRAS IMPERDÍVEIS:

9.1) “C.R.A.Z.Y.” (na Mostra “Projeta: Filmes do Quebec”)

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Pedofilia, aberração em “Una”?

Georges Bataille, em “O Erotismo” (um dos 5 melhores livros q li na vida!), dizia q a cada momento da cultura a sociedade elege uma “figura dilacerante”, uma aberração, q representaria o ápice da excrescência humana, o q nos forçaria a repelir inevitavelmente, uma repulsa urgente, exigência pulsional (Freud) necessária à nossa preservação subjetiva. “Erotismo”, para Bataille, numa de suas acepções, significa “a relação de atração ou repulsa inevitável com algum objeto”. A sociedade, portanto, sempre criará os “monstros da vez”, os párias unânimes, capazes de enojar multidões, instigando ódio, distância ou, no limite, linchamento.

No mito de Satã (muito bem comentado num texto de Arnaldo Chuster), bem pr’além de qualquer religiosidade, Lúcifer (anjo da luz, dileto de Deus) seria expulso do paraíso por excesso de lucidez, “caindo do céu”, perdendo a “graça divina”, caindo em “desgraça”, fadado à escuridão. Lúcifer “cai em si”. Proponho, a partir daí, uma articulação: nossa cultura acostumou-se ao ato falho de dizer q “sofreu uma desilusão”. Do q o humano sofre? De “desilusão” ou de ilusão??? Nosso desamparo fundamental (Freud) convida a buscarmos sempre um cobertor amigo, um substituto por vezes caricato do útero materno perdido. Somos tementes a Deus, a Freud, aos pais, a uma posição política, ou a uma relação amorosa. Sofremos, portanto, de uma grande e crônica ilusão.

No entanto, por conta de nossa condição inevitável de ambivalência emocional, vacilamos. O paradoxo nos salva da morte no útero, daí duvidamos. Alguma lucidez recalcada provoca o retorno fundamental do Lúcifer de nossas transgressões. Sentimos uma atração incômoda pelo proibido, pelo abjeto, pelo sujo. Apedrejamos e perdoamos, não pela suposta soberba de um abnegado perdão, vendido por algumas religiões; fazemos este duplo movimento, contradição pura, pq internamente necessitamos, como uma “nova ação psíquica” (Freud), uma bálsamo oxigenante diante de uma asfixia de um regime do impossível do grande Outro (Lacan). A fúria de nossos desejos e ódios se expressa no nojo seguido de complacência, no horror seguido de tesão. Podem encontrar isto em Freud e Bataille, ou em Buñuel e Pasolini, Deus e Lúcifer.

Nos dias atuais, essa figura abjeta, capaz de enojar a todos, seria o pedófilo. Unanimidade, este ser consegue ser massacrado e ultrajado até nos presídios. É o estupro consentido, a justiça reconquistada, o ódio acalmado. Como no brilhante filme “Sexo por Compaixão”, apedrejamos a “Geni” q nos causa um tesão estranho (Freud), um incômodo q precisamos rechaçar, recalcar, pois seu efeito nos é dilacerante (Bataille), insuportável. Maria Rita Kehl propõe q o sujeito q se diz “de caráter ilibado” não passa de um neurótico ressentido, negando a cisão fundante do humano, fadado ao eterno conflito psíquico de q Freud tanto nos falou. Portanto, a despeito do nojo/ódio, precisamos buscar alguma conciliação, ainda q parcial, com o horror da pedofilia.

Noutros momentos históricos, já odiamos os negros, os judeus ou os homossexuais. Obviamente, aqui não cabe compará-los, ou equipará-los, mas apenas questionar este nojo maniqueísta q nos faz ter tesão numa roupa de colegial do sex shop, logo após apedrejarmos a pedofilia. Não há aqui, em absoluto, nenhuma proposição de legalização do ato pedófilo. Apenas uma aproximação de mais essa aberração, demasiadamente humana.

No filme “Una”, o excelente diretor australiano Benedict Andrews nos apresenta uma “pedofilia consentida”, o q por si só já desorganiza nossas estruturas prévias. Com isto vai muito mais além do bom e superestimado “A Caça”, já q este apenas nos apresenta o desconforto da facilidade com q podemos acatar e criar um ser abjeto, a partir de sutilezas imaginárias. Como dizia Freud, se tudo q minhas histéricas dizem for verdade, metade dos pais da Europa é pedófila…

A discussão em “Una” é revolucionária, muito à frente do nosso tempo. Antimaniqueísta ao extremo, aqui não há vítimas ou vilões, mocinhos ou bandidos. Também não há complacência, ou negação de danos emocionais à menina. O filme é para além. O diretor insiste em pesquisar as emoções dos personagens, à parte do contexto cultural, sem no entanto negá-lo, posto q o pedófilo é preso.

Uma das questões fundamentais abordadas é a interrupção do curso da relação amorosa entre a menina e o adulto. A menina, agora mulher, quer acertar as contas com sua própria história, abalroada pelas leis da família e do Estado. Vai ao encontro do homem q amou, ou ama, reivindicando a legitimidade de seu sentir, já q agora a sociedade não constitui impedimentos, posto q ambos são, em idade, igualmente adultos.

A história de amor desses dois humanos precisava de um desenrolar, de um desfecho, precisava da beleza de uma desilusão, sem nenhuma mediação social. A menina precisava “resolver” seu tesão e sua raiva, seu amor e sua ilusão. Para tal, prepara-se, maquiagem em riste, exigindo reconhecimento de q agora é uma mulher.

“Una” é a obra-prima à frente do nosso tempo, sobre a ultimização (Fernando Pessoa) de um amor, para além dos Montecchios e Capuletos (Shakespeare) de nossa sociedade atual, q somos nós mesmos. Suportá-lo nos reinventa e desmascara, nos disponibiliza a outras aberrações, novos ódios e repugnâncias. Q venham os próximos, quem sabe os terroristas…

Psicanálise, “A Grande Aposta”

O q é análise? É possível responder a esta pergunta?

A primeira resposta seria não, pois se análise é um ato singular, pessoal e intransferível, não há generalização possível q organize suas categorias de funcionamento universalmente.

Uma segunda resposta possível, tão verdadeira quanto a primeira, precisaria reunir especificidades do processo psicanalítico q estivessem supostamente presentes na análise de qualquer um. Idealmente, é claro, doutra forma nenhuma teoria seria possível.

Poderíamos, talvez, começar quebrando um lugar-comum sobre psicanálise, q nos sirva como exemplo suficiente por hora. “Análise é algo a longo prazo. Coisa pra muitos anos…” Na realidade, análise não possui um pressuposto ou tendência cronológica. Tudo depende dos projetos – conscientes e inconscientes – q emanarem do encontro analista-analisando, tanto em termos de quantidade quanto em profundidade. O efeito dessa coisa chamada encontro (ou “Terceiro”, como nomeou o psicanalista Thomas Ogden, um de meus preferidos) desdobra-se também no tempo, q tem Chronos como uma de suas acepções. Isto é, a partir da singularidade do par analista-analisando, haverá um desdobramento da análise numa certa temporalidade, através de alguns específicos caminhos e não outros, percorrendo determinadas emoções e atingindo transformações particulares. O “prazo” de duração da análise, portanto, está no meio desta enorme malha de possibilidades.

Partindo para uma outra característica bastante própria a uma análise, encontramos a ideia de aposta. Optarei aqui por tomar a ideia de aposta num sentido bem forte da palavra. Nenhum dos significados q encontrei nos dicionários se aproxima o suficiente do q aqui quero propor. Penso aposta, inicialmente, como Ferenczi (psicanalista húngaro, provavelmente o mais importante de todos q conheci), quando este diz q “sábio é o ser que adivinha”. Adivinhação, aqui, nada tem a ver com previsão de futuro. A ideia de Ferenczi é q qualquer pessoa tem condições de acompanhar algum acontecimento tão íntima e atentamente q poderia então ad-vinhar algo do q está por vir. Quando algo se dá, traz consigo inúmeros “penduricalhos” q configuram os múltiplos desdobramentos em potencial. Portanto, quando algo vem, outras coisas ad-vêm juntamente. O psicanalista, como qualquer outra pessoa, pode propor certos usos possíveis destas tendências, desde q, como tudo, com grandes cuidados éticos.

Conversando com um analisando economista, há uns meses atrás, falávamos da palavra cenário, cotidianamente utilizada em seu trabalho. Traçávamos vários cenários possíveis, e daí organizávamos e criávamos caminhos de trabalho analítico juntos. Este seria apenas um exemplo de usos da aposta, no caso a partir de cenários possíveis (assim como as “condições de possibilidade” do filósofo Kant).

Gostaria, finalmente, de propor uma articulação com “A Grande Aposta”, indicado ao Oscar de Melhor Filme deste ano. Surpreendentemente, apesar de bastante hollywoodiano, ele nos traz uma ótima discussão. O personagem de Christian Bale (um dos melhores atores da atualidade) antecipa uma crise inédita no mercado imobiliário. Ao invés de focar no falo deste personagem e dos poucos q compram sua ideia – clássico recurso no cinema comercial -, o diretor opta por denunciar a mediocridade não apenas dos americanos, mas de praticamente todos os “analistas financeiros” do mundo. Ainda q o tema “ações/imóveis” seja sua matéria de estudo e trabalho, e seu ganha-pão, todos pensam em manada (como retratavam insistentemente Buñuel, Pasolini e outros tantos há algumas décadas).

A ênfase, portanto, está na extrema impossibilidade de fazerem a simples pergunta: “Será?”. Os raros q a fazem, claro, enriquecem financeiramente (já eram mais ricos noutros sentidos). Além disso, o personagem de Bale (um tantinho estereotipado como louco/excêntrico) se questiona: “Quem está errado nunca sabe, e nem o porquê de estar.” Ele sabia q pelos argumentos de massa dos q acreditam no “em time que está ganhando não se mexe”, ele não estava errado. Porém, poderia haver alguma variável desconhecida (como alguma fraude no sistema, não cogitada por ele).

Pior, se ele estivesse errado seria o triunfo da mediocridade, e nunca um fator específico não mensurado (como no final do filme “A Promessa”, com Jack Nicholson). Quantas vezes conseguimos apostar no “não consagrado”? O q há de tão sagrado nas apostas viciadas? Poderíamos conjeturar q um rapaz de pernas tortas como Garrincha marcaria seu nome exatamente como jogador de futebol, por exemplo? Quantos filmes não consagrados por Hollywood nos arriscamos a assistir? Se alguém procura uma análise estando muito mal, poderíamos vislumbrar algo mais do q apenas a melhora daquele mal-estar?

Tendo em vista todas essas questões, proponho pensarmos na especificidade do trabalho de análise como uma Grande Aposta. Tomarei “aposta” no sentido de olhar além do sagrado, do totem q nos entorpece os sentidos (ler o texto “Totem e Tabu” de Freud). Este posicionamento já no início de uma análise antecipa algum importante esvaziamento do Grande Outro* q impede a liberdade do sujeito.

A partir do potencial apresentado inconscientemente pelo próprio analisando, o analista já começa a trabalhar dentro desta Grande Aposta. Enquanto isso, o analisando segue inebriado pela fragrância do vislumbre de q algo ali parece fazer sentido. Nada mais, apenas isso. Claro q não estou me atendo aos analisandos q creem cegamente em qualquer coisa vinda deste analista Suposto Saber.

Portanto, analista e analisando entram numa trilha “ao som” do poeta Maiakovski: “Eu caminho no escuro, pois cogito a luz”, num mergulho de Lúcifer, abandonando a luz divina supostamente pré-assegurada, doa o q doer, como diria Clarice Lispector ou a personagem do filme “Livre”. Sem o glamour de qualquer coisa tipo “Deixa a vida me levar”, sem a suposta garantia do saber prévio do analista, sem Freud nem Lacan como seguro-fiança, só resta a vertigem. Ética e dolorida. E sem final feliz, pois ganhando umas e perdendo outras, “no final a banca sempre leva”, como diz o diabo em “Desconstruindo Harry”, a obra-prima máxima de Woody Allen.

 

 

* Grande Outro: termo criado por Jacques Lacan para nomear o cenário singular q cada um de nós carrega como fantasma viciante. O q nos faz repetir, repetir, até, no melhor dos casos, ousar alguma transformação.

 

Petra Costa, A Melhor Diretora Brasileira da Atualidade (“Elena” e “Olmo e a Gaivota”)

Estrear na direção com uma obra-prima (“Elena”) já é algo extremamente raro (o último foi Xavier Dolan, com “Eu Matei Minha Mãe”); realizar o segundo filme (“Olmo e a Gaivota”) com excelência já consolida o lugar de Petra Costa como uma das grandes diretoras do cinema mundial, e como a melhor no cenário do Brasil atualmente.

No primeiro, a diretora atravessa sua própria história, transmitindo a construção do amor entre ela e sua irmã, o suicídio desta, e a “travessia do fantasma” (Lacan) de Petra, elaborando sua tragédia “a sangue e osso”, sem trejeitos, pieguices, distrações ou disfarces. “Elena” é um filme de uma vida inteira, daqueles q não se faz mais de um. Acima deste patamar, apenas os maiores de todos os tempos: Wim Wenders, Woody Allen, Chaplin, Buñuel, Truffaut, Sergio Leone, Polanski, Bertolucci, Tarantino, etc.

A partir de “Olmo e a Gaivota”, Petra Costa ratifica sua sensibilidade fora de qualquer curva, dirimindo qualquer dúvida ceticista sobre sua capacidade de explicitar além de sua vivência direta. Ao acompanhar as idiossincrasias subjetivas de um casal do início ao fim de uma gravidez delicada, edita a la “livre associação” (Freud) a densidade das situações conflitivas (a perda do papel principal na peça, pela protagonista do filme; os meses proibida de sair de casa), vista pela perspectiva de cada um. Além disso, apresenta as questões sem um direcionamento prévio, ou seja, não busca soluções, já q os impasses humanos não necessariamente tendem a alguma coisa. São, portanto, como verbos intransitivos: não nascem atrelados a alguma solução. Apenas existem, e sempre existirão.

A presença de um senso de humor q não banaliza a dor de cada um, e nem “resolve” nenhuma polêmica, colore o cotidiano do casal (ambos atores de teatro) sem nenhum glamour caricato.

A continuidade do casamento, ou sua dissolução, nunca se apresentam como questão central. Assim, Petra Costa me remete ao poeta Manoel de Barros, com sua frase ímpar: “Pássaros me outonam.” A poesia de Manoel desconstrói a superfície de contato entre “pássaro” e “outono”, elevando a experiência sensível a uma amplitude quase infinita. Petra, em “Olmo e a Gaivota”, verbaliza de forma intransitiva o “ser casal” e o “ser grávido”, muito pr’além de qualquer encaminhamento sob encomenda.

Por toda esta sensibilidade nos dois filmes, e a intensidade das sutilezas subjetivas de seus “personagens” (ao criar um documentário, a realidade se torna versão, e as pessoas se tornam personagens), Petra Costa já é a diretora a ser vista, independentemente do q venha a realizar em cinema.