Melhores Filmes em Cartaz (atualizado constantemente)

1) “Assunto de Família”: Excelente!! Sensibilidade ímpar, beleza rara. O retrato de uma “família”, onde o afeto é o protagonista, e os adultos ensinam “o q sabem”, para além das óbvias implicações educacionais para as crianças. Muito para além do maniqueísmo do politicamente correto, o grande diretor japonês Hirokazu Kore-Eda (do duríssimo e também excelente “Ninguém Pode Saber”) apresenta um drama inequivocamente comprometido com as verdades do submundo da miséria, as leis do cotidiano q vive a despeito de políticos, policiais e assistentes sociais. A transgressão aqui corresponde não apenas ao risco, a um posicionamento na contracultura, ou a uma glamourização do poder vivenciado pelo transgressor, mas sim a uma saída pró-Eros, uma resistência sem retóricas, uma assunção do afeto como lei central, custe o q custar (como a discussão de Almodóvar em “Fale com Ela”). Atuações brilhantes, imperdível. Ver mais no post “Só o Afeto Interessa (‘Assunto de Família’)”, aqui neste blog.

2) “Culpa”: Excelente! Mais uma vez, o cinema nórdico confirma sua condição de melhor dos últimos 15 anos (ver mais no post “‘Cinema bege’, a última revolução no Cinema”, aqui neste blog). Neste thriller dinamarquês, rodado totalmente dentro de 2 salas de uma delegacia, com a contenção gestual típica da Escandinávia. Um policial recebe uma ligação de uma mulher, durante um sequestro. Contrariando a frieza dos colegas, envolve-se inteiramente no drama. O diretor tensiona as interpretações q fazemos diante das lacunas de informação. Como propõe o psicanalista Contardo Calligaris, não suportamos o não saber, daí inserimos uma “tampa” artificial, uma projeção do q já sabemos do mundo, a fim de apaziguar nosso estranhamento ante ao novo. Reviravoltas muito interessantes, roteiro e atuações excelentes.

3) “Cafarnaum”: A incrível história de um menino de 12 anos q cuida dos irmãos, abandona os pais abandonadores para viver com refugiados e processa aqueles, para q não tenham mais filhos. Fortíssimo, tocante e real. Imperdível, arrebatador.

4) “A Favorita”: Ótimo. Excelentes atuações de Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone. Jogos de sedução, intrigas políticas, sarcasmo e cinismo generalizado. O único senão é q filmes sobre a perversão na burguesia do século 18 são bastante comuns. Apesar disto, vale muito conferir.

5) “Infiltrado na Klan”: Muito bom! Provavelmente o melhor filme de Spike Lee. Com sua habitual crítica ácida às múltiplas variações do preconceito racial nos EUA, escrachadas e sutis, o cineasta cria um clima de humor negro e tensão constante na trama de um policial negro trabalhando em parceria com outro branco. Ótimas atuações, inteligente e divertido.

6) “Bohemian Rhapsody”: Muito bom! A vida do inigualável Freddie Mercury. Para os fãs do ícone de uma geração, imperdível.

7) EXTRAS IMPERDÍVEIS:
7.1) “Ilha dos Cachorros” (na mostra “Verão no Estação”)

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Errância psicótica em “A Senhora da Van”

Tanto no senso comum quanto para a maioria dos psicanalistas, psicose é sinônimo de surtos, delírios e alucinações. No pior dos casos (infelizmente muito comum), psicose é loucura, estar fora da realidade. O projeto clínico mais comum com os psicóticos sempre aponta para uma “neurotização” da subjetividade, tomando – ainda q inconscientemente – o funcionamento psíquico do psicanalista como parâmetro de “normalidade”. Claro q há alguns analistas q fogem desse absurdo, assim como na filosofia de Deleuze, por exemplo.

Mesmo quando a psicose não é ostensivamente pejorativizada (fato raríssimo), seu potencial é extremamente subdimensionado. Vivemos num tempo de glamourização do “deixa a vida me levar”, errantes, à deriva – efeito, entre outras questões, de uma crônica falta de autoquestionamento humano. O psicanalista Philippe Julien nomeia esse estado de “paranoia comum”.

Contardo Calligaris, outro brilhante psicanalista, propõe pensarmos a errância como uma “lógica psicótica sem surtos, delírios ou alucinações”. Diz q os psicóticos funcionam sem os referenciais típicos dos neuróticos, mais disponíveis a qualquer acontecimento, não regidos pelas mesmas leis do cotidiano instituído (“normótico”). Esta disponibilidade não é uma glamourização da psicose – pois se assim fosse, daria tudo na mesma, seria apenas retórica vazia.

Grosso modo, por exemplo: diante de uma placa central na estrada, o psicótico pode olhar para outra coisa, não ver a placa. Isto, como tudo na vida, tem repercussões potentes e outras sofridas.

No brilhante filme “A Senhora da Van”, a protagonista (interpretada por Maggie Smith, soberba) vive uma mulher errante, numa mendicância motorizada. Estaciona – em definitivo – em frente à casa de um escritor (vivido por Alex Jennings, magnífico). A vizinhança londrina – extremamente obsessiva e maledicente – rapidamente a deprecia, fazendo o papel da sociedade alienada/alienante, representando uma lógica manicomial, excludente.

O escritor, igualmente londrino-obsessivo porém bastante humano, observa a nova “vizinha” atentamente. Gradualmente, vai se aproximando da senhora, com pequenos gestos de ajuda, sempre em tons extremamente contidos. A vizinha, com o simbólico nome de “Mary Shepherd”, nunca agradece (ao menos nos moldes a q estamos neuroticamente acostumados).

O excelente diretor Nicholas Hytner orquestra à perfeição o “casal” protagonista, em atuações memoráveis, impecáveis, dignas de qualquer prêmio cinematográfico. O personagem do escritor – mais humanizado – dialoga diariamente com seu alter ego, vivido como faceta um tanto mais austera, sempre com um olhar de reprovação superegoica. O escritor “toca a vida”, falando com a vizinha; enquanto o alter ego apenas observa, coletando dados para um futuro livro, olhando a vida pela janela.

Uma Londres solitária q sofre silenciosamente a ausência de contato físico, imersa num horror inconsciente à vida, sempre protegida por teorizações sobre o cotidiano: este é o cenário esplendidamente retratado pela direção meticulosa do filme.

A senhora passa a estacionar sua van no quintal do escritor, onde fica por 15 anos. A fábula acompanha a aproximação dos protagonistas, metaforizando a inclusão gradual da psicose na sociedade, processo árduo, rascante.

Paralelamente, o escritor recebe jovens rapazes à noite, numa preconceituosa Londres dos anos 70. O diretor acerta em cheio ao não aprofundar esta parte da trama, deixando bem clara sua opção de figura e fundo.

Enfim, o resultado é um brilhante tratado sobre errância psicótica, obsessão londrina, solidão resignada, vida teorizada à distância, exclusão e inclusão. Apesar dos tons de fábula, não nos poupa dos odores fétidos de nossa demasiada humanidade.