A Magia de Star Wars: Édipo e Antimaniqueísmo

Por que a saga Star Wars conquistou tamanha longevidade, apaixonando diferentes gerações?

Independentemente de eu ser também um grande fã, e de muito ser dito ao redor do mundo sobre tal história, penso q vale aqui um pequeno comentário, sem pretensão de outros aprofundamentos possíveis.

A estruturação de Guerra nas Estrelas, como muitos pensam, segue a lógica da “jornada do herói” (questão estudada e eternizada pelo antropólogo Joseph Campbell). A articulação com os arquétipos de Jung, assim como o Complexo de Édipo (um dos pontos de partida do raciocínio freudiano), permeia toda esta saga, marco da história do cinema.

No entanto, praticamente todas as grandes aventuras transformadas em série para o cinema poderiam ser enquadradas nesta pequena definição supracitada (como a excelente “Senhor dos Anéis”, por exemplo). Qual seria então o diferencial de Star Wars?

Em praticamente todos os filmes de aventura, o herói e o vilão são bastante marcados, maniqueisticamente. Além disso, as jornadas dos heróis incluem o momento do vacilo, de quase colocar tudo a perder (“vendendo fácil o q não tinha preço”, como diria Renato Russo), seguido por uma virada, geralmente com alguma ajuda de um coadjuvante.

Claro q há maniqueísmo tb em Star Wars, além de vários destes elementos típicos. Porém, aqui o vilão principal (Darth Vader) era a grande esperança do “lado bom da Força”, um Skywalker. Cooptado pelo imperador, torna-se a maior arma do “lado negro”. Através do ódio por ter perdido sua esposa, Anakin não é mais capaz de sustentar sua humanidade, sendo transformado numa máquina de potência inigualável. A manipulação através da fúria é uma arma comum em estratégias de guerra (como no atual exemplo dos homens-bomba, dentre tantos).

O enfrentamento contra o mais forte tb é algo comum neste tipo de história, como Davi contra Golias. No entanto, aqui é filho contra pai, e filho recooptando o pai. Ou seja, a lógica “mocinho mata o bandido no final” é subvertida, pois a luta de Darth Vader contra o filho funciona como uma “Travessia do Fantasma” (Lacan), onde o pai se reaproxima da dor de ter perdido a mulher através do embate. Enquanto isso, o filho enfrenta o fantasma de sua “negra” origem. São, portanto, dois enfrentamentos próprios, simultâneos, subvertendo a perspectiva superficial de quem vencerá a luta.

Darth Vader já sabia q tinha 2 filhos gêmeos, posto q tinha uma sensibilidade Jedi diferenciada. Porém, a existência dos filhos era psiquicamente cindida, recalcada, até o momento do embate, do atravessamento.Sua fúria era melancólica, e o “lado negro” representaria sua vida “à sombra do objeto perdido” (Freud, em “Luto e Melancolia”).

Pais e filhos “brincam de brigar”, quando vão ao cinema assistir a “Star Wars”. Brincam com a transmissão do saber, com o ciclo de vida e morte, com o desejo de um cooptar o outro, e serem um só. O ambicioso e raro projeto de um aprender com o outro, e o conflito geracional dar espaço a uma dupla transmissão, onde as idades podem ser fortemente subvertidas, é suscitado através da suposta “historinha de homens infantis brigando de espadas”. A metáfora salva o ser humano da superficialidade interpretativa…

Além de tudo isso, há o fato de que os heróis dessa “Guerra nas Estrelas” são bastante dissipados, não havendo portanto um “poderoso chefão”. Luke não chega nem perto de um macho-alfa, e nem namorada tem. Grande parte das mortes efetuadas pelo vilão Darth Vader são por “sufocar as mentes fracas”, sem necessidade de nenhuma violência física para escancarar o q realmente mata numa sociedade. Ao final, o imperador cai no abismo de sua arrogância.

Pq a saga “Star Wars” tende a se eternizar? Muito provavelmente por conta de nosso inelutável conflito interno, por conta da ambivalência de nossos desejos, da tensão constante com nossa fúria interna, da nossa crônica tendência a eleger vilões e mocinhos, e depois encarar nosso arrependimento (no melhor dos casos…). “Guerra nas Estrelas” brinca com nosso maniqueísmo, com nosso tragicômico paradoxo subjetivo. Que os sabres de luz possam simbolizar as disputas fálicas não apenas entre homens, mas também entre homens e mulheres, ou entre mulheres. Que a força da metáfora esteja conosco.

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