O Novo Cinema Soviético (“Tangerines” e “A Ilha do Milharal”)

O Oscar premia todo tipo de filme: de obras-primas como “O Poderoso Chefão” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”, a equívocos como “Quem Quer Ser um Milionário?” e “Argo”. Dos eternos Al Pacino e Jack Nicholson, aos fracos Jeff Bridges e Cuba Gooding Jr. Das brilhantes Julianne Moore e Judi Dench, às sem adjetivos Sandra Bullock e Kim Basinger. Isso para citar apenas os anos mais recentes. Mas considero q, sem sombra de dúvidas, o legado mais respeitável e o único praticamente infalível desta premiação tendenciosa se refere aos indicados a filme estrangeiro.

Irônico q o maior espetáculo hollywoodiano erre pouco apenas no cinema não americano… Quando digo q é um braço bastante preciso de premiação, me refiro apenas ao fato de q praticamente todos os indicados são excelentes filmes, pérolas q renderam prazeres inesquecíveis. Claro q há uma lista infindável de obras-primas sem menção neste Oscar, como “A Professora de Piano” (meu filme preferido) e tantos outros (ver mais no post “Grande Lista de Filmes”, aqui neste blog). Igualmente descontemplados são atores como Isabelle Huppert (a melhor atriz do mundo, incomparável), Mathieu Amalric e Ricardo Darín.

Entre os 9 pré-indicados pra 2015 (além dos 5 finalistas, os outros também têm grande valor), além do brilhante polonês “Ida” (merecidamente vencedor), do unânime argentino “Relatos Selvagens” e do ótimo sueco “Força Maior”, houve outras 2 belas surpresas q descobri através desta fonte: “Tangerines” (representante da Estônia) e “A Ilha do Milharal” (da Geórgia). Dois países da extinta União Soviética, ainda sem tradição no cenário mundial, dois excelentes filmes de arte. Ambos trazem a guerra da Abecásia (na Geórgia) como pano de fundo.

No primeiro, estoniano, pessoas abandonam suas casas diante de um panorama de guerra. Um senhor de 60 anos (o protagonista) decide ficar em sua terra, não acompanhando sua família na emigração. Certo dia, dois soldados entram em sua casa, em tom sutilmente intimidador. Bem tratados, saem agradecidos, levando pão e água. No dia seguinte, tiroteio em frente à propriedade. Os 2 lados em guerra saem baleados, quase todos mortos. O senhor carrega um soldado baleado (um dos q ele havia recepcionado na véspera), abrigando-o num de seus quartos. Quando ia enterrando os outros, descobre mais um ainda vivo e também o acolhe. A questão é q este é do exército q lutava contra o outro…

Como o primeiro combatente se recupera mais rápido dos ferimentos, avisa ao “velho” (modo como ele se dirige ao dono da casa) q matará o outro soldado, responsável pela morte de seu companheiro no combate. O senhor escuta, calado. No dia seguinte, diante da mesma ameaça, replica: “Dentro da minha casa não permitirei.” O soldado, surpreso, acata: “Assim q ele botar a cara pra fora da casa, eu o mato.” O senhor permanece em silêncio.

A cada dia q passa, o senhor vai transmitindo valores, apenas através do seu modo de cuidar dos 2 homens. As raras palavras q fala são para conter os instantes tensos entre os antagonistas, à beira das vias de fato. Após uns dias, o senhor faz uma provocação ao primeiro combatente: “Se o outro botar o pau pra fora da casa pra mijar, vc atira no pau?” O soldado nada diz, quase como se quisesse sorrir. Mais tarde, fazem um churrasco no quintal, numa espécie de trégua tácita. Até chegar o dia em q precisariam lutar do mesmo lado. (Aí deixo para vcs assistirem, já adiantei demais…)

A beleza do diretor é orquestrar vários personagens obsessivos num pequeno cenário também obsessivo (onde cada detalhe pode de fato acabar em tragédia), em um contexto maior de tensão bélica no país, e ainda assim apresentar ao espectador a sensibilidade afetiva emanada pelo personagem do senhor e, gradativamente, percebida e recebida pelos dois soldados. Tudo isso numa linguagem extremamente contida, em todos os sentidos. Belíssimo. A eloquência “bege” do cinema nórdico (ver mais no post “’Cinema bege’, a última revolução no cinema”, aqui neste blog) conversa de perto com este “cinema soviético”.

O segundo filme, “A Ilha do Milharal”, apresenta um belo e duro cenário pós-guerra onde um velho camponês descobre uma “nova ilha” – na estação de baixa do volume de água de um rio, “nascem” micro ilhas –, com boas condições de plantio. Constrói sozinho a estrutura de uma casa de madeira, depois traz sua neta para juntos finalizarem sua nova morada, e uma plantação de milho no espaço restante da “ilha”.

A partir daí, tensões do pós-guerra e do amadurecimento da púbere menina são trabalhadas com extrema delicadeza e precisão. É bastante possível traçar um paralelo com “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera”, obra-prima de Kim Ki-duk, onde um velho e um garoto atravessam as 4 estações como metáfora das agruras do crescimento, tudo num belíssimo cenário duma ilha entre montanhas. Mais uma vez, todos esses filmes apresentam suas questões através de personagens extremamente obsessivos, sempre com gestual minimalista.

Dois belíssimos filmes expondo intensidades emocionais em relações obsessivamente delicadas, com economia e eloquência. Quem sabe até um novo polo cinematográfico.

Anúncios

“Cinema bege”, a última revolução no Cinema

Assim como o clássico “Dogma 95” – movimento cinematográfico criado na Dinamarca por Lars von Trier e Thomas Vinterberg q propunha a restrição dos “truques técnicos” como novo traço estilístico -, gostaria de aqui sugerir q o último grande movimento revolucionário no cinema mundial é o q chamarei de “cinema bege”, ou mais genericamente falando, cinema nórdico, por ser o polo de tal inovação.

Bege seria o símbolo icônico de uma discursividade onde intensas emoções são retratadas numa estética radicalmente “não-latina”. Os “vermelhos de Almodóvar”, emblemas visuais tipicamente latinos, expressam tais intensidades com inegável beleza (como a “fecundação gráfica” entre o enfermeiro Benigno e a bailarina em coma em “Fale com Ela”, minha cena preferida na História do Cinema). Enquanto esta estética foi sendo incorporada pelo paladar internacional, o século 21 apresentou-nos a joia do cinema bege.

Na contramão dos vermelhos latinos, o cinema nórdico traz “O Homem sem Passado” (Aki Kaurismaki; 2001), “Histórias de Cozinha” (Bent Hamer; 2003), “Elling” (Per Christian Ellefsen; 2001), “Além do Desejo” (Pernille Fischer Christensen; 2006) “Em um Mundo Melhor” (Susanne Bier; 2010), “Caro Sr. Horten” (Bent Hamer; 2007), “Submarino” (Thomas Vinterberg; 2010), “1001 Gramas” (Bent Hamer; 2014), este último esteve em cartaz no Festival do Rio 2014.

A partir dos supracitados, fica claro q o diretor expoente do cinema bege é Bent Hamer. E o filme-alusão máxima deste novo estilo é “Histórias de Cozinha”, onde uma empresa contrata freelas para ficarem de “observadores não-participantes” no cotidiano de cozinhas de proprietários q aceitaram um dinheiro para oferecerem suas casas à pesquisa. O objetivo era descobrir “quantos passos uma pessoa dá entre cada atividade do dia-a-dia na cozinha”, para daí então criar a “cozinha perfeita”, com os eletrodomésticos dispostos da maneira mais geograficamente prática (?!…) A partir desta premissa nonsense, o diretor nos apresenta uma belíssima história do nascimento de uma amizade entre observador e observado. Numa dança silenciosa, em tons pastel (bege), nós espectadores somos inundados com jorros de afetos e afetações, numa estética extremamente sutil, q nada perde em intensidade para nenhum vermelho latino.

Diferentemente do minimalismo de um excelente cinema “oriental” (“Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera”, de Kim Ki-duk, por exemplo), q se utiliza de uma câmera microscópica para enfatizar sutilezas, este cinema nórdico transmite as intensidades dos personagens através da cena como um todo – cenário, silêncios, movimentos leves, olhares ao fundo.

Como o filósofo moçambicano José Gil – q considero o mais importante da atualidade – nos coloca em seu texto “Abrir o Corpo”, nós “ouvimos com o corpo”. Grande articulador da Psicanálise com a Dança, Gil propõe q pensemos nosso corpo como poroso, num sentido forte do termo, enfatizando assim nossa recepção de sensações (ao q ele nomeou “pequenas percepções”). São micro sutilezas, como as “inutilezas” do poeta Manoel de Barros.

Cinema bege, José Gil e Manoel de Barros, belíssimas variações discursivas sobre a beleza sutil do humano, percebido à despeito de recursos de ênfase.