A Dança do Vazio (“De Canção em Canção”)

Na obra-prima “De Canção em Canção”, o diretor Terrence Malick dá uma aula magistral de fotografia. Com uma edição lisérgica e bastante desconstrutivista, hipnotiza o espectador numa dança infinita entre os personagens, seu glamour, seus medos, seu tesão, e, principalmente, seu vazio.

As ótimas atuações de Ryan Gosling, Michael Fassbender e Rooney Mara fazem um diferencial na “dança em transe” em q o diretor nos embala. Transmite o vazio sem necessitar de nenhuma trucagem aguda, nenhuma cena trágica, nenhum acontecimento bizarro. Sequer utiliza qualquer droga ilícita para criar a atmosfera de uma espécie de “Walking Dead” estilizado. Com isto, escolhe um caminho oposto, por exemplo, de Darren Aronofsky em sua obra-prima “Réquiem para um Sonho”, q expõe as veias abertas do vazio de seus personagens.

Malick começa com algumas cenas de bastidores do mundo da música, celebridades, beleza, sedução. Passa para a sexualidade, exprimindo muito mais uma sensualidade do q o sexo explícito (novamente opta pela “transmissão sem trucagens). Daí insere o ciúme, os jogos de poder, uma espécie de ménage insinuado, sempre de forma indireta.

Bem aos poucos, o sorriso do espectador vai sumindo, a despeito de sua própria percepção. A depressão silenciosa, enfim, começa a se anunciar. A personagem de Rooney Mara encontra o pai, apresentado a nós como um abandonador blasé. Malick larga este pai imediatamente, retirando-nos um álibi clichê. Como na brilhante e eterna frase de Mikhail Bakhtin: “Não há álibi para a existência”.

A partir daí, a angústia engole a tela, definitivamente. Os personagens dançam o desencontro, exibindo sua enorme impotência ante a seus desejos de vinculação. O personagem de Ryan Gosling até tenta uma aproximação maior com a de Rooney Mara, obviamente sem sucesso. O de Fassbender imediatamente se esquiva, por ser o maior “fiador” do espetáculo da indiferença, do vazio. “Adquire” outro espécime sedento por algum prazer maior (a personagem de Natalie Portman), e reinicia sua repetição sintomática (como no final do filme “Mãe!”, também de Aronofsky).

Desiludido, o personagem de Gosling procura uma saída numa nova relação com uma mulher mais velha, supostamente mais consistente (onde entra Cate Blanchett). Ledo engano. Nenhum ser humano consegue êxito quando tenta “morar fora”, ou seja, afastar-se geograficamente de seus fantasmas. Como diria Freud, o “recalcado” sempre retorna. O escapismo também é a saída buscada pela personagem de Mara, num “relacionamento” amoroso com uma mulher.

Já desesperados, as gambiarras não funcionam mais, o suicídio passa a ser uma opção mais honesta.

Ou alguma generosidade consigo e para com o outro, caso suportassem e pudessem crer e apostar num processo de atravessamento do fantasma, a única opção humanamente consistente.

A Psicanálise, não enquanto panaceia, é tão somente uma das possibilidades de aprofundamento subjetivo, assim como a Arte ou a Filosofia. Não apenas os heróis de Cazuza morreram de overdose, como também nossos paliativos emocionais, nossos escapismos e maquiagens possuem prazo de validade. Vazio não admite álibi, nem é suficientemente sedado por antidepressivos ou ansiolíticos, maconha ou cocaína, redes sociais ou afins. Como em “O Sétimo Selo” (Bergman), a morte não será enganada, nem durante a vida. Restaria algum acordo mais honesto, como no desfecho de “Palermo Shooting”, de Wim Wenders, o maior dos diretores de Cinema.

 

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Abrir o Peito à Força (“O Cidadão Ilustre”)

A obra-prima “O Cidadão Ilustre” é o melhor filme de 2017. Os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat (dos excelentes e igualmente sátiros “Querida Vou Comprar Cigarros e Já Volto” e “O Homem ao Lado”) realizaram com maestria um filme impecável, ao conseguir articular comédia sofisticada, escracho, drama, suspense, e ainda um leve toque de surrealismo. Joia rara, já q até mesmo grandes diretores escorregaram ao tentar incluir 2 estilos diferentes de narrativa, como Woody Allen em “Match Point” e Almodóvar em “Má Educação”.

Vamos às questões de “O Cidadão Ilustre”. O protagonista, vivido pelo brilhante Oscar Martinez (de “Ninho Vazio” e “Relatos Selvagens”) – em atuação impressionante, digna de todos os prêmios do ano -, vive um escritor q acaba de ser laureado com o Nobel de Literatura. No discurso de premiação, afirma q a popularidade de um artista representa o início de seu declínio. A plateia, q incluía a rainha da Suécia, fica perplexa. A partir daí, o universo da literatura reage cancelando inúmeras homenagens e palestras, em revolta a seu tom ofensivo.

Este momento inicia um período de isolamento radical, e vazio criativo. Daniel (nome do personagem) não lê, não escreve, não namora, não trepa. Como me disse certa vez uma pessoa querida, constrói um “eremitério”, q dura 5 anos. Num certo dia, ouvia sua secretária ler convites para palestras e homenagens. Recusava-as todas, com ares de tédio pedante. Uma delas chamou sua atenção, por ser uma homenagem em sua cidade natal, Salas, na Argentina. Inicialmente rejeita, lembrando tê-la deixado há 40 anos para viver em Barcelona.

Estranhamente muda de ideia, dando início a toda a trama. Saindo do aeroporto na Argentina, é recebido por um motorista caricato, num carro caindo aos pedaços. Enguiçam numa estrada erma, passando a noite no relento. O único jeito de se aquecerem é queimar páginas de seu livro prêmio Nobel. O motorista chega a rasgar uma das páginas para limpar a bunda, na falta de papel higiênico.

Chegando enfim à cidade, um carro dos bombeiros o espera, para desfilarem a céu aberto, com uma gordinha miss da cidade. Daniel observa tudo ao seu redor com seu olhar crítico, registrando cada micro absurdo em silêncio. Enquanto o carro passa, não há multidão a aplaudir nas ruas, apenas um casal, olhando.

Em sua primeira homenagem e palestra, sala lotada e papeizinhos brilhosos jogados pro alto. Daniel segue com seu cinismo e ironia silenciosos. O prefeito ao lado, rentabilizando através.

A partir daí, o filme apresenta uma série de encontros estranhos do protagonista: um amigo de infância, a namorada da adolescência (hoje esposa do tal amigo). Daniel caminha pelas ruas, à busca de nada; nem flanância, nem qualquer busca. Um ou outro o segue, sem arriscar aproximação. Aos poucos, as solicitações passam a irritar sua assepsia emocional.

Após trepar com uma incauta, dar um “selinho” em sua ex, votar num concurso de pinturas, jantar com seu amigo, inicia-se seu novo ocaso. Daniel passa a receber ameaças ostensivas contra sua integridade física.

A cidade de Salas se explicita a seu cidadão mais ilustre: o mau pintor, seu antigo “amigo”, todos apresentam sua ferocidade tacanha, como nos clássicos “Manderlay” e “Dogville”, de Lars Von Trier. Os caninos saem do armário.

Daniel começa, enfim, a assumir sua agressividade pedante: diz q não é uma “ONG” (com precisão cirúrgica) a um pai dum deficiente pedindo uma nova cadeira de rodas de 10 mil dólares, além de outros atos de “sincerocídio”.

Finalmente, nosso protagonista consegue compreender e aquilatar o perigo de vida a q está submetido… Tenta fugir da cidade (sugestão de sua ex). No clímax do filme, Daniel é morto, e sobrevive.

Resta a discussão: foi tudo ficção ou realidade?? Daniel, já de volta à Espanha – agora aceitando ser fotografado pela imprensa -, recebe uma homenagem por seu novo livro (contando a história de sua ida a Salas). Um dos jornalistas pergunta se o tiro no peito do protagonista tinha realmente ocorrido, se o livro é literalmente autobiográfico ou não, ao q ele responde: “Interprete como quiser…” – mostrando uma cicatriz no próprio peito.

A “travessia do fantasma” (Lacan) do Cidadão Ilustre passava por um reencontro com seus horrores mais intensos, dos quais não podemos fugir. Ele dizia, no início do filme, q a única coisa q tinha feito na vida era sair de Salas. “Vou me encontrar longe do meu lugar” (Milton Nascimento). Frequentemente escuto, dentro e fora do consultório, pessoas repetindo a seguinte fala: “Meu sonho é morar fora.” Infelizmente, este lugar – fora – não existe. Não há fuga de si, não há apelação ou desvio de nossa rota fantasmática, “não há álibi para a existência” (Mikhail Bakhtin). Portanto, como dizia Freud, à negação de nossos desejos secretos responde o “retorno do recalcado”. Como nos filmes de horror, o fantasma sempre volta; ainda q a passos lentos, sempre nos alcançará.

Apesar do protagonista manter até o fim sua postura pedante, ele consegue transpassar sua “capa protetora”, a película q o impede de sentir, de tocar o mundo. Seu peito é rasgado à força, na agonística busca de se libertar da asfixia de suas próprias ideias obsessivas, de seu purismo intelectual, sua superioridade arrogante, q o impediam de acessar minimamente sua humanidade.

A volta à sua cidade natal destrói aos poucos qualquer arremedo de acordo de distância de si. Daniel, enfim, perde sua “virgindade” e ascende à própria humanidade, rasgando qualquer blindagem q o protegesse da vida. “Abrir o peito à força numa procura” é uma viagem sem cinto de segurança, sem apelações. Homenagem à música de Milton Nascimento (“Caçador de Mim”), eternamente tocante.