Os Melhores Filmes de 2017

Sempre resisti à ideia de fazer este tipo de lista dos “melhores”. Sempre achei q isso não servia pra praticamente nada, apenas um exercício de vaidade pública. Mudei de ideia, hj penso q pode ser apenas uma troca de experiências e sensações, prazerosa e despretensiosa.

Listar os melhores filmes sempre provoca justos questionamentos, como: “Faltou tal filme!!”. Enfim, só o q sempre resta é fazer algo pessoal. Então, o critério aqui será: os 10 q mais me afetaram, impactaram. Não vou discutir aspectos técnicos, nem qualidade artística do diretor ou das atuações, especificamente. Tudo ficará incluído nesta categoria escolhida, nomeada “afetação/impacto/atravessamento”. Também não vou me preocupar caso a data exata de lançamento fora do Brasil for de um ano anterior. Por último, “Por que 12 e não 10, ou 15?”: pq este número acabou sendo resultado dos q não consegui excluir. Os restantes q também adorei estão na Grande Lista (ler mais no post “Grande Lista de Filmes (atualizada constantemente)”, aqui neste blog.

Sem mais delongas, aqui vão os 10, em ardem de afetação:

1)”De Canção em Canção”: Obra-prima, um absurdo de filme. Terrence Malick (“A Árvore da Vida”) atinge aqui seu apogeu, já pode entrar no grupo dos grandes diretores da história. Uma das melhores fotografias de todos os tempos, com um roteiro construído à perfeição, retratando o vazio e a desconexão de personagens belos e bem sucedidos no mundo da música. Sem precisar apelar para as drogas como objetos-gatilho do afundamento emocional, Malick traça as sutilezas de cada personagem, entrecortadas numa edição impecável.

2) “O Cidadão Ilustre”: Obra-prima. Os diretores argentinos acertaram de ponta a ponta: construção de roteiro perfeita, argumento consistente, tensão crível, humor ácido e inteligente, e atuação impecável do excelente protagonista Oscar Martínez. Brilhante.

3) “Bom Comportamento”: Thriller policial frenético, obra-prima. Os diretores Ben e Joshua Safdie acertaram em cheio em cada micro detalhe, especialmente na construção dos personagens. O irmão psicótico do protagonista (interpretado magistralmente pelo próprio diretor) é perfeito a cada cena (destaque para quando se joga na porta de vidro), psicanaliticamente crível. Todos os outros personagens – a menina que os ajuda, o doente errado -, são incluídos e performados à perfeição. Imperdível!!

4) “Una”: Praticamente uma obra-prima. Um filme além do nosso tempo. Georges Bataille, em seu livro “O Erotismo” (um dos 5 melhores q li na vida!), dizia q a cada momento da cultura a sociedade elege uma “figura dilacerante”, uma aberração, q seria impossível evitar a criação desta figura do pária social, o q enoja a todos. Atualmente, essa figura seria o pedófilo. “Una” nos apresenta o abusador e a vítima de forma antimaniqueísta, desconstruindo a figura aberrante, viabilizando nossa aproximação sem ternura ou raiva prévias. Brilhante. (Ler mais no post “Pedofilia, aberração em ‘Una’?”, aqui neste blog.)

5)”Toni Erdmann”: O melhor dos q assisti no Festival do Rio 2016. Rara comédia simples e inteligente, com risos do início ao fim. Um cômico pai percebe q a distância emocional de sua filha – q mora em Budapeste – atingiu níveis excessivos, ao vê-la o tempo todo no celular, durante uma visita dela à família. Ele decide então visitá-la, e invadir com humor seu cotidiano de executiva. Com o tempo, o vazio das amizades e trepadas de sua vida ficam evidentes, e alguma linguagem afetiva – sem pieguice – pode ser iniciada entre eles. Excelente!

6) “O Apartamento”: Praticamente uma obra-prima. Excelente no roteiro, nas atuações e na direção. Tenso, não linear, sustenta as dúvidas dos personagens num timing preciso, até cada micro desfecho. Arrebatador, impecável.

7) “Moonlight – Sob a luz do luar”: Incrível. Denso nas discussões sobre a solidão do protagonista, complexo na construção de sua homossexualidade, abrangente no mérito de usar uma linguagem palatável até mesmo ao limitado e viciado universo hollywoodiano. De grande qualidade artística, atuações excelentes, fotografia precisa. Destaque para a belíssima cena final, desde q o protagonista tira sua dentadura dourada, até encostar no peito de seu amigo/paixão.

8) “Com Amor, Van Gogh”: Excelente! 100 pintores desenharam esta obra, contando a história real e as especulações sobre a morte de Van Gogh. O estilo de pintura é como se o próprio artista tivesse realizado esta animação; além disso, a história é ambientada nos cenários dos quadros do holandês. Extremamente triste, o filme enfatiza a solidão e a culpa crônicas de Van Gogh. Imperdível.

9) “Gaga – O amor pela dança”: Excelente! A poética história do bailarino e coreógrafo israelense Ohad Naharin. O diretor do doc, Tomer Heymann, apresenta de forma precisa e coordenada trechos dos espetáculos, vida pessoal do artista, a construção de sua carreira, e o contexto político de seu país. Sua coluna “cartilaginosa” revolucionou a dança, às custas de impedi-lo de continuar dançando, além de um câncer na cervical de sua primeira esposa. Forte, belo, incrível.

10) “Na Mira do Atirador”: Maravilhoso. Tensão construída à perfeição num campo de batalha, entre 2 atiradores de elite. Brilhante e extremamente inteligente, nada óbvio, sem clichês de heroísmos, apenas a dramaticidade de cada eterno instante de sobrevida.

11) “Star Wars: Os Últimos Jedi”: Excelente (para os fãs, como eu). Ambientação à perfeição – bichos esquisitos, cenários belíssimos, 3D em alto nível – e elementos clássicos homenageando os primeiros episódios (especialmente “O Império Contra-Ataca”). As lutas “à distância” são o destaque do filme. A única nota ruim é o exagero de canastrice de Mark Hamill (o Luke).

12) “Verão 1993”: Excelente. Atuações incríveis das 2 crianças protagonistas, num filme extremamente delicado. A história de uma menina q acaba de perder a mãe (além do pai já ser falecido) por conta de AIDS. O tio, sua esposa e filha a acolhem como nova integrante da família, muito amorosamente. A diretora Carla Simón apresenta-nos a processualidade elaborativa da perda, detalhe por detalhe. A raiva da menina é assimilada por todos como “continente” (conceito de Bion, psicanalista britânico) emocional. O flerte com os limites lembra a adoção de “O Garoto da Bicicleta” (dos irmãos Dardenne), e o abraço de exaustão remete a “Aos Treze” (clássico sobre adolescência). Emocionante, sem pieguice.

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Pedofilia, aberração em “Una”?

Georges Bataille, em “O Erotismo” (um dos 5 melhores livros q li na vida!), dizia q a cada momento da cultura a sociedade elege uma “figura dilacerante”, uma aberração, q representaria o ápice da excrescência humana, o q nos forçaria a repelir inevitavelmente, uma repulsa urgente, exigência pulsional (Freud) necessária à nossa preservação subjetiva. “Erotismo”, para Bataille, numa de suas acepções, significa “a relação de atração ou repulsa inevitável com algum objeto”. A sociedade, portanto, sempre criará os “monstros da vez”, os párias unânimes, capazes de enojar multidões, instigando ódio, distância ou, no limite, linchamento.

No mito de Satã (muito bem comentado num texto de Arnaldo Chuster), bem pr’além de qualquer religiosidade, Lúcifer (anjo da luz, dileto de Deus) seria expulso do paraíso por excesso de lucidez, “caindo do céu”, perdendo a “graça divina”, caindo em “desgraça”, fadado à escuridão. Lúcifer “cai em si”. Proponho, a partir daí, uma articulação: nossa cultura acostumou-se ao ato falho de dizer q “sofreu uma desilusão”. Do q o humano sofre? De “desilusão” ou de ilusão??? Nosso desamparo fundamental (Freud) convida a buscarmos sempre um cobertor amigo, um substituto por vezes caricato do útero materno perdido. Somos tementes a Deus, a Freud, aos pais, a uma posição política, ou a uma relação amorosa. Sofremos, portanto, de uma grande e crônica ilusão.

No entanto, por conta de nossa condição inevitável de ambivalência emocional, vacilamos. O paradoxo nos salva da morte no útero, daí duvidamos. Alguma lucidez recalcada provoca o retorno fundamental do Lúcifer de nossas transgressões. Sentimos uma atração incômoda pelo proibido, pelo abjeto, pelo sujo. Apedrejamos e perdoamos, não pela suposta soberba de um abnegado perdão, vendido por algumas religiões; fazemos este duplo movimento, contradição pura, pq internamente necessitamos, como uma “nova ação psíquica” (Freud), uma bálsamo oxigenante diante de uma asfixia de um regime do impossível do grande Outro (Lacan). A fúria de nossos desejos e ódios se expressa no nojo seguido de complacência, no horror seguido de tesão. Podem encontrar isto em Freud e Bataille, ou em Buñuel e Pasolini, Deus e Lúcifer.

Nos dias atuais, essa figura abjeta, capaz de enojar a todos, seria o pedófilo. Unanimidade, este ser consegue ser massacrado e ultrajado até nos presídios. É o estupro consentido, a justiça reconquistada, o ódio acalmado. Como no brilhante filme “Sexo por Compaixão”, apedrejamos a “Geni” q nos causa um tesão estranho (Freud), um incômodo q precisamos rechaçar, recalcar, pois seu efeito nos é dilacerante (Bataille), insuportável. Maria Rita Kehl propõe q o sujeito q se diz “de caráter ilibado” não passa de um neurótico ressentido, negando a cisão fundante do humano, fadado ao eterno conflito psíquico de q Freud tanto nos falou. Portanto, a despeito do nojo/ódio, precisamos buscar alguma conciliação, ainda q parcial, com o horror da pedofilia.

Noutros momentos históricos, já odiamos os negros, os judeus ou os homossexuais. Obviamente, aqui não cabe compará-los, ou equipará-los, mas apenas questionar este nojo maniqueísta q nos faz ter tesão numa roupa de colegial do sex shop, logo após apedrejarmos a pedofilia. Não há aqui, em absoluto, nenhuma proposição de legalização do ato pedófilo. Apenas uma aproximação de mais essa aberração, demasiadamente humana.

No filme “Una”, o excelente diretor australiano Benedict Andrews nos apresenta uma “pedofilia consentida”, o q por si só já desorganiza nossas estruturas prévias. Com isto vai muito mais além do bom e superestimado “A Caça”, já q este apenas nos apresenta o desconforto da facilidade com q podemos acatar e criar um ser abjeto, a partir de sutilezas imaginárias. Como dizia Freud, se tudo q minhas histéricas dizem for verdade, metade dos pais da Europa é pedófila…

A discussão em “Una” é revolucionária, muito à frente do nosso tempo. Antimaniqueísta ao extremo, aqui não há vítimas ou vilões, mocinhos ou bandidos. Também não há complacência, ou negação de danos emocionais à menina. O filme é para além. O diretor insiste em pesquisar as emoções dos personagens, à parte do contexto cultural, sem no entanto negá-lo, posto q o pedófilo é preso.

Uma das questões fundamentais abordadas é a interrupção do curso da relação amorosa entre a menina e o adulto. A menina, agora mulher, quer acertar as contas com sua própria história, abalroada pelas leis da família e do Estado. Vai ao encontro do homem q amou, ou ama, reivindicando a legitimidade de seu sentir, já q agora a sociedade não constitui impedimentos, posto q ambos são, em idade, igualmente adultos.

A história de amor desses dois humanos precisava de um desenrolar, de um desfecho, precisava da beleza de uma desilusão, sem nenhuma mediação social. A menina precisava “resolver” seu tesão e sua raiva, seu amor e sua ilusão. Para tal, prepara-se, maquiagem em riste, exigindo reconhecimento de q agora é uma mulher.

“Una” é a obra-prima à frente do nosso tempo, sobre a ultimização (Fernando Pessoa) de um amor, para além dos Montecchios e Capuletos (Shakespeare) de nossa sociedade atual, q somos nós mesmos. Suportá-lo nos reinventa e desmascara, nos disponibiliza a outras aberrações, novos ódios e repugnâncias. Q venham os próximos, quem sabe os terroristas…