Petra Costa, A Melhor Diretora Brasileira da Atualidade (“Elena” e “Olmo e a Gaivota”)

Estrear na direção com uma obra-prima (“Elena”) já é algo extremamente raro (o último foi Xavier Dolan, com “Eu Matei Minha Mãe”); realizar o segundo filme (“Olmo e a Gaivota”) com excelência já consolida o lugar de Petra Costa como uma das grandes diretoras do cinema mundial, e como a melhor no cenário do Brasil atualmente.

No primeiro, a diretora atravessa sua própria história, transmitindo a construção do amor entre ela e sua irmã, o suicídio desta, e a “travessia do fantasma” (Lacan) de Petra, elaborando sua tragédia “a sangue e osso”, sem trejeitos, pieguices, distrações ou disfarces. “Elena” é um filme de uma vida inteira, daqueles q não se faz mais de um. Acima deste patamar, apenas os maiores de todos os tempos: Wim Wenders, Woody Allen, Chaplin, Buñuel, Truffaut, Sergio Leone, Polanski, Bertolucci, Tarantino, etc.

A partir de “Olmo e a Gaivota”, Petra Costa ratifica sua sensibilidade fora de qualquer curva, dirimindo qualquer dúvida ceticista sobre sua capacidade de explicitar além de sua vivência direta. Ao acompanhar as idiossincrasias subjetivas de um casal do início ao fim de uma gravidez delicada, edita a la “livre associação” (Freud) a densidade das situações conflitivas (a perda do papel principal na peça, pela protagonista do filme; os meses proibida de sair de casa), vista pela perspectiva de cada um. Além disso, apresenta as questões sem um direcionamento prévio, ou seja, não busca soluções, já q os impasses humanos não necessariamente tendem a alguma coisa. São, portanto, como verbos intransitivos: não nascem atrelados a alguma solução. Apenas existem, e sempre existirão.

A presença de um senso de humor q não banaliza a dor de cada um, e nem “resolve” nenhuma polêmica, colore o cotidiano do casal (ambos atores de teatro) sem nenhum glamour caricato.

A continuidade do casamento, ou sua dissolução, nunca se apresentam como questão central. Assim, Petra Costa me remete ao poeta Manoel de Barros, com sua frase ímpar: “Pássaros me outonam.” A poesia de Manoel desconstrói a superfície de contato entre “pássaro” e “outono”, elevando a experiência sensível a uma amplitude quase infinita. Petra, em “Olmo e a Gaivota”, verbaliza de forma intransitiva o “ser casal” e o “ser grávido”, muito pr’além de qualquer encaminhamento sob encomenda.

Por toda esta sensibilidade nos dois filmes, e a intensidade das sutilezas subjetivas de seus “personagens” (ao criar um documentário, a realidade se torna versão, e as pessoas se tornam personagens), Petra Costa já é a diretora a ser vista, independentemente do q venha a realizar em cinema.

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Declínio e Beleza do Amor em “Love” e “Lua de Fel”

No polêmico filme “Love”, exibido em Cannes-2015, o diretor Gaspar Noé (do excelente e intenso “Irreversível”) apresenta cenas de sexo explícito, longas e variadas. Ainda fico extremamente impressionado como o sexo segue sendo um assunto bombástico, inevitavelmente. Q seja mobilizante, ok. Mas sempre polêmico e causando alvoroço já acho over – tanto pros q elogiam o filme-sensação da vez, quanto pros q criticam.

Desde os tempos da obra-prima “Último Tango em Paris” (1972), passando pelo fraco e superestimado “Império dos Sentidos” (1976), pelo muito bom “Calígula” (1979), até os excelentes “Ninfomaníaca” e “Azul é a Cor Mais Quente” (ambos de 2013), e agora o ótimo “Love” (2015), o sexo ainda segue chocando até a plateias não moralistas. Pq o sexo não pode ser apenas um elemento especial ou interessante, mas não o centro cataclísmico do nosso impacto num filme? Se o sexo roubar a cena AUTOMATICAMENTE, nossa subjetividade, por vários motivos, terá se tornado automática. No mínimo, um desperdício de potencial. A sexualidade pode ser poética, inspiradora, eloquente, lasciva, criativa, suave, pulsante, etc. Mas se for “automática”, neste sentido aqui proposto, aí soa triste e pobre.

Retomando “Love” como um todo, sem diminuir nem aumentar a importância da sexualidade, mas apenas devolvendo seu lugar de um dos elementos relevantes neste filme, me parece q o tema forte é a ascensão e o declínio do amor, em tons agudos. O diretor estuda detalhadamente a importância de sexo, amor e fidelidade para cada personagem. E o faz de forma artística, talvez com alguns micro excessos, nada grave.

Somos levados a acompanhar as diferenças de gênero durante os dilemas dos protagonistas na sustentabilidade do amor. As promessas sinceras, de validade curta. O brilho no olhar, agonisticamente em queda livre e lenta. O desespero dos amantes, q fazem de TUDO para tentar segurar o amor, em seu irremediável declínio. Se é amor ou paixão o q fenece, escolho não entrar nesta seara. Acho q é amor sim, neste filme, a título de nota apenas.

A referência mais direta de “Love” é o clássico “Lua de Fel” (Polanski, 1992). As desesperadas artimanhas sexuais de um casal desempregado, extasiado ante à luxúria e ao amor, desempenham igual papel nas duas obras. A tragédia final é o destino óbvio de uma intensidade purista q exige sustentação sem concessões, numa rota de sempre mais além, custe o q custar. E custa. Não é q os protagonistas não tentem uma “dobra sobre si” (como propõe o filósofo Deleuze), porém não sabem como procurar, nem onde. Certamente não seria indo às compras num “sex shop de gente”, tentando ménage, orgia, ou um travesti. O resultado: ofensas, ódio, e as lágrimas da melancolia, “à sombra do amor perdido” (parafraseando Freud, em “Luto e Melancolia”).

A violência, mais leve em “Love” do q em “Lua de Fel” ou em “Irreversível” (também sobre um amor não sustentado, ainda q numa tragédia mais pontual), parece até uma “dor q não dói”, por ser uma violência-substituto de uma dor muito mais insuportável. Lembro dos anos em q trabalhei em clínica psiquiátrica, onde muitas vezes ouvi pessoas dizendo q cortavam os pulsos “para atenuar a dor da alma”, ou a “dor de existir”. Daí, portanto, a morte – concreta ou não – parece ser talvez um descanso impotente, uma crônica de uma morte anunciada, citando Gabriel Garcia Márquez.

A discussão última fica na questão apresentada ao fim de “Lua de Fel”, quando Peter Coyote (paralítico) diz à sua esposa: “Nós fomos longe demais, baby.”, logo antes de matá-la e a si. É essa a questão? Ou é a outra frase, no mesmo filme: “Os casais deviam se separar no auge da paixão, e não esperar até o inevitável declínio.”?

Em “Réquiem para um Sonho” (2000) e em “Os Sonhadores” (2003), a discussão aponta para a prévia ingenuidade do sonho e dos sonhadores. Tragédia sempre anunciada. Em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (2004), o roteiro aponta para o mito de Sísifo (discutido no livro de Albert Camus), onde estaríamos fadados a conduzir nossas paixões ladeira acima, mesmo sabedores da tragédia de q a pedra sempre cairá ladeira abaixo no fim.

Excesso, ingenuidade, condição da humanidade… Para onde aponta o declínio da beleza amorosa?

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