Melhores Filmes em Cartaz (atualizado constantemente)

1) “Ilha dos Cachorros”: Maravilhoso. O ótimo diretor Wes Anderson (do muito bom “O Grande Hotel Budapeste”) atinge aqui seu ápice. Em uma animação para adultos (q até pode ser vista por crianças), discute temas como xenofobia, guerras mundiais, ditadura, resistência (no sentido proposto por Michel Foucault) e lealdade. Fotografia belíssima, roteiro central aparentemente simples, personagens incríveis. Um filme imperdível, pura arte.

2) “Você nunca Esteve Realmente Aqui”: Excelente! Prêmios de Roteiro e Ator (Joaquin Phoenix, do irretocável “Ela”) no Festival de Cannes. O protagonista busca resgatar meninas do tráfico sexual pedófilo. Entremeado por suas reminiscências traumáticas, vivencia o paradoxo da frieza de um matador, com a compaixão indignada contra a violência infantil. Esta “travessia do fantasma” (Lacan) é brilhantemente montada pela diretora Lynne Ramsay, e interpretada à perfeição por Phoenix. Merecidamente premiados.

3) “Bergman – 100 anos”: Excelente. Documentário de alto nível sobre um dos maiores cineastas de todos os tempos. Utilizando o icônico ano de 1957, onde sua personalidade work-a-holic foi ao limite, o filme mostra alguns traços do estilo profissional de Ingmar Bergman, além de alguns poucos trechos de sua vida pessoal, como a complexa relação com seu irmão. Destaque para a mistura de características de pessoas de sua vida real em personagens de seus filmes, como a hipótese da Fanny (de “Fanny e Alexander”) representar o próprio Bergman. O doc tinha conteúdo pra mais de um filme.

4) “As Boas Maneiras”: Ótimo. Uma saborosa e grande surpresa assistir a um filme brasileiro de suspense, e com efeitos especiais de real qualidade. Atuações marcantes em papéis difíceis de Marjorie Estiano e, especialmente, Isabél Zuaa. Os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra ousaram o tempo inteiro, integrando estilos diferentes – suspense/fantasia e drama -, ponto onde já derraparam nomes como Woody Allen (no superestimado “Match Point”) e Almodóvar (em “Má Educação”, q perdeu a chance de ser uma obra-prima). Além disso, o roteiro discute de forma interessante e não lugar-comum preconceitos vindos das classes altas e das baixas, exibindo sem maniqueísmo o quanto o medo do ser humano evoca suas emoções mais primitivas, como ódio e violência. Como se não bastasse todo este conteúdo, ainda sobra espaço para um tesão homossexual q está para além do dito “gênero”. Pra quem gosta de referências, algumas cenas lembram momentos de “A Marca da Pantera”, e outras o excelente nórdico “Deixe Ela Entrar”.

5) “Custódia”: Ótimo. Extremamente tenso, fixa o espectador na fina linha da iminência de uma desgraça. A carga dramática, extenuante, lembra filmes como o excelente italiano “Violação de Domicílio”, e a obra-prima francesa “O Ódio”. A direção, bastante competente, nos conecta ao drama de uma mulher e seus 2 filhos à beira de um colapso, através do horror e da raiva ante à fragilidade, ingenuidade e otimismo negligente. O ex-marido, vivido brilhantemente pelo ator Denis Ménochet, procura um lugar no mundo com as parcas forças q tem, a violência sempre à beira de alguma destruição.

6) “Desobediência”: Muito bom. Após a morte de um rabino respeitado por todos, sua filha volta de Nova York para os cerimoniais de despedida. Reencontra uma amiga com quem teve uma história apaixonada, agora casada com um primo. Este retorno provoca grandes intensidades e dúvidas na vida de todos. O filme mostra com muita qualidade o efeito mórbido da deserotização, da desistência das intensidades. Porém, como diria Freud, esta “solução de compromisso” nunca funciona plenamente, e o “retorno do recalcado” é inevitável.

7) “A Festa”: Bom. Uma reunião celebrativa em torno da nova Ministra da Saúde britânica – personagem vivida pela excelente Kristin Scott Thomas (da obra-prima “Lua de Fel”) -, torna-se um festival de agressividades múltiplas, revelações terríveis entre amigos e casais. Apesar das excelentes atuações (destaque para o brilhante Bruno Ganz, de “A Queda”), este, como vários outros filmes similares, não chega aos pés de “O Anjo Exterminador”, obra-prima de Buñuel, referência para muitas destas tragédias sincerocidas.

8) EXTRAS IMPERDÍVEIS:

8.1) “Hedwig – Rock, amor e traição”

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Abrir o Peito à Força (“O Cidadão Ilustre”)

A obra-prima “O Cidadão Ilustre” é o melhor filme de 2017. Os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat (dos excelentes e igualmente sátiros “Querida Vou Comprar Cigarros e Já Volto” e “O Homem ao Lado”) realizaram com maestria um filme impecável, ao conseguir articular comédia sofisticada, escracho, drama, suspense, e ainda um leve toque de surrealismo. Joia rara, já q até mesmo grandes diretores escorregaram ao tentar incluir 2 estilos diferentes de narrativa, como Woody Allen em “Match Point” e Almodóvar em “Má Educação”.

Vamos às questões de “O Cidadão Ilustre”. O protagonista, vivido pelo brilhante Oscar Martinez (de “Ninho Vazio” e “Relatos Selvagens”) – em atuação impressionante, digna de todos os prêmios do ano -, vive um escritor q acaba de ser laureado com o Nobel de Literatura. No discurso de premiação, afirma q a popularidade de um artista representa o início de seu declínio. A plateia, q incluía a rainha da Suécia, fica perplexa. A partir daí, o universo da literatura reage cancelando inúmeras homenagens e palestras, em revolta a seu tom ofensivo.

Este momento inicia um período de isolamento radical, e vazio criativo. Daniel (nome do personagem) não lê, não escreve, não namora, não trepa. Como me disse certa vez uma pessoa querida, constrói um “eremitério”, q dura 5 anos. Num certo dia, ouvia sua secretária ler convites para palestras e homenagens. Recusava-as todas, com ares de tédio pedante. Uma delas chamou sua atenção, por ser uma homenagem em sua cidade natal, Salas, na Argentina. Inicialmente rejeita, lembrando tê-la deixado há 40 anos para viver em Barcelona.

Estranhamente muda de ideia, dando início a toda a trama. Saindo do aeroporto na Argentina, é recebido por um motorista caricato, num carro caindo aos pedaços. Enguiçam numa estrada erma, passando a noite no relento. O único jeito de se aquecerem é queimar páginas de seu livro prêmio Nobel. O motorista chega a rasgar uma das páginas para limpar a bunda, na falta de papel higiênico.

Chegando enfim à cidade, um carro dos bombeiros o espera, para desfilarem a céu aberto, com uma gordinha miss da cidade. Daniel observa tudo ao seu redor com seu olhar crítico, registrando cada micro absurdo em silêncio. Enquanto o carro passa, não há multidão a aplaudir nas ruas, apenas um casal, olhando.

Em sua primeira homenagem e palestra, sala lotada e papeizinhos brilhosos jogados pro alto. Daniel segue com seu cinismo e ironia silenciosos. O prefeito ao lado, rentabilizando através.

A partir daí, o filme apresenta uma série de encontros estranhos do protagonista: um amigo de infância, a namorada da adolescência (hoje esposa do tal amigo). Daniel caminha pelas ruas, à busca de nada; nem flanância, nem qualquer busca. Um ou outro o segue, sem arriscar aproximação. Aos poucos, as solicitações passam a irritar sua assepsia emocional.

Após trepar com uma incauta, dar um “selinho” em sua ex, votar num concurso de pinturas, jantar com seu amigo, inicia-se seu novo ocaso. Daniel passa a receber ameaças ostensivas contra sua integridade física.

A cidade de Salas se explicita a seu cidadão mais ilustre: o mau pintor, seu antigo “amigo”, todos apresentam sua ferocidade tacanha, como nos clássicos “Manderlay” e “Dogville”, de Lars Von Trier. Os caninos saem do armário.

Daniel começa, enfim, a assumir sua agressividade pedante: diz q não é uma “ONG” (com precisão cirúrgica) a um pai dum deficiente pedindo uma nova cadeira de rodas de 10 mil dólares, além de outros atos de “sincerocídio”.

Finalmente, nosso protagonista consegue compreender e aquilatar o perigo de vida a q está submetido… Tenta fugir da cidade (sugestão de sua ex). No clímax do filme, Daniel é morto, e sobrevive.

Resta a discussão: foi tudo ficção ou realidade?? Daniel, já de volta à Espanha – agora aceitando ser fotografado pela imprensa -, recebe uma homenagem por seu novo livro (contando a história de sua ida a Salas). Um dos jornalistas pergunta se o tiro no peito do protagonista tinha realmente ocorrido, se o livro é literalmente autobiográfico ou não, ao q ele responde: “Interprete como quiser…” – mostrando uma cicatriz no próprio peito.

A “travessia do fantasma” (Lacan) do Cidadão Ilustre passava por um reencontro com seus horrores mais intensos, dos quais não podemos fugir. Ele dizia, no início do filme, q a única coisa q tinha feito na vida era sair de Salas. “Vou me encontrar longe do meu lugar” (Milton Nascimento). Frequentemente escuto, dentro e fora do consultório, pessoas repetindo a seguinte fala: “Meu sonho é morar fora.” Infelizmente, este lugar – fora – não existe. Não há fuga de si, não há apelação ou desvio de nossa rota fantasmática, “não há álibi para a existência” (Mikhail Bakhtin). Portanto, como dizia Freud, à negação de nossos desejos secretos responde o “retorno do recalcado”. Como nos filmes de horror, o fantasma sempre volta; ainda q a passos lentos, sempre nos alcançará.

Apesar do protagonista manter até o fim sua postura pedante, ele consegue transpassar sua “capa protetora”, a película q o impede de sentir, de tocar o mundo. Seu peito é rasgado à força, na agonística busca de se libertar da asfixia de suas próprias ideias obsessivas, de seu purismo intelectual, sua superioridade arrogante, q o impediam de acessar minimamente sua humanidade.

A volta à sua cidade natal destrói aos poucos qualquer arremedo de acordo de distância de si. Daniel, enfim, perde sua “virgindade” e ascende à própria humanidade, rasgando qualquer blindagem q o protegesse da vida. “Abrir o peito à força numa procura” é uma viagem sem cinto de segurança, sem apelações. Homenagem à música de Milton Nascimento (“Caçador de Mim”), eternamente tocante.

Travessias do desamparo (“Livre”, “Na Natureza Selvagem” e “Elena”)

Sem sombra de dúvida, “Elena” e “Na Natureza Selvagem” têm mais qualidade q “Livre”. Porém, este último possui vários méritos surpreendentes. Já valeria por suscitar a articulação c/ essas outras obras tão marcantes no cinema.
“Elena”, provavelmente o q vai mais fundo na questão da dor e da busca por voltar a respirar, é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Petra (a diretora) filma sua história c/ sua irmã Elena, q cometeu suicídio quando Petra ainda era menina. A beleza do amor entre as irmãs é expressa à perfeição, sem o menor traço de pieguice ou de “linguagem interna” não compreensível ao espectador. Petra transmite o atravessamento de sua dor pela perda da irmã, buscando alguma possível e humana sublimação (termo q Freud retirou c/ ótima simplicidade da química: “passagem do estado sólido para o gasoso”). A diretora vai à própria infância para arrancar visceralmente seus pedaços mortos. Sua autenticidade corajosamente ímpar impacta e derruba qualquer um q tenha disponibilidade ao sentir (assim como o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi cunhou seu “sentir com”, para falar de sua afetação com seus analisandos). Petra arrisca sua sanidade em busca de algo mais q sobreviver – lembrando o poético trecho “consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”, da belíssima música de Renato Russo (“Sereníssima”). Atravessa seu fantasma através da arte, assim como tenta o pintor Gorky, personagem do filme “Ararat”, obra-prima de Atom Egoyan. Através da Psicanálise, através da Arte, o mergulho pelo trágico permite uma possibilidade árida, sem garantia alguma.
Em “Na Natureza Selvagem”, Sean Penn expressa magistralmente a busca de um jovem por se livrar da opressão superegoica introjetada pelos valores impostos por seus pais. Conquista o direito a estudar em Harvard (sonho/exigência de seus pais), queima carro e dinheiro – prêmios q eles lhe dão -, e parte para ficar algum tempo no Alasca, totalmente sozinho. Conhece algumas pessoas extremamente interessantes e sensíveis ao longo do percurso, porém nunca se disponibiliza a mais q um “flerte”, pois está fechado em sua reta intenção. O q ele não percebe é q sempre levamos o trágico na mochila, pois não há apagamento possível das memórias afetivas; as milhas de distância podem no máximo ser um paliativo interessante enquanto não é possível enfrentar o fantasma, cortejar a insanidade q Petra desperta de e em Elena, no outro filme. A onipotência/arrogância dos pais do garoto o acompanha ao Alasca, escondida, até ressurgir em sua morte, quando ele acha q pode sobreviver no gélido deserto com apenas um livrinho de plantas comestíveis. Ousado como gente grande, ingênuo como um menininho q foge p/ a casa de árvore no quintal. O “retorno do recalcado”, como nos diz Freud, é implacável, inexorável.
Enfim, voltando ao filme “Livre”, a personagem de Reese Witherspoon busca uma andança de 3 meses numa severa trilha, deserto e neve incluídos. Durante seu percurso, visita sua história c/ a mãe, recentemente morta de um câncer súbito. “Corteja” seus tempos de drogadição e promiscuidade (obviamente sem moralismos aqui), e seus episódios de raiva da mãe, por esta ter escolhido um marido alcoólatra e violento. Machuca seu corpo fisicamente na trilha, como tantas vezes vi pessoas cortando seus pulsos para tentar expurgar suas dores emocionais. Das drogas, passando pela promiscuidade, até o corpo ferido na trilha, a protagonista percorre a “travessia de seu fantasma” (termo bem colocado por Lacan), tentando rasgar sem arrebentar. Afinal, pergunta-se: “Nunca me redimirei?”, “Ou já me redimi?”, “Errei ao me machucar?”, “Ou precisei disto para chegar noutro lugar?”
Portanto, “Livre” merece todo o crédito pelo uso apenas comedido dos clichês hollywoodianos, por alguns questionamentos profundos e por evocar outros filmes de tamanha sensibilidade.