Sorrentino, O Contador de Histórias (“A Grande Beleza”, “A Juventude” e “Aqui é o Meu Lugar”)

O diretor e roteirista italiano Paolo Sorrentino, por sua filmografia, já merece ser reconhecido como um dos mais importantes da atualidade. Seu estilo de fazer cinema é extremamente marcante – esteticamente ímpar, irônico, pretensioso, consistente, melancólico.
Sua forma de contar histórias transcende os roteiros, q acabam como composição coadjuvante. Em “Aqui é o meu Lugar” (2011), Sean Penn (brilhante no complexo papel) vive um roqueiro andrógino decadente. Seu olhar transborda ironia, sublinhando sutilmente os absurdos do cotidiano. Numa cena, o protagonista e sua mulher compartilham o espelho do banheiro, enquanto ambos se maquiam; noutro momento, Penn se mete numa conversa de mulheres sobre batom num elevador, sugerindo a marca q ele usa, por fixar melhor. Ao fundo, uma trilha sonora maravilhosa conduz o filme à perfeição.
Em “A Grande Beleza” (2013), Sorrentino atinge seu ápice, além de ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (o único “braço” sério do Oscar). O protagonista vive um encontro inesquecivelmente belo aos 19 anos, e fica deslumbrado. A partir daí, passa a vida inteira buscando algo q o fizesse sentir “aquilo” novamente. Frequenta festas da alta sociedade em Roma, exposições de arte contemporânea, belas mulheres, discussões sobre literatura, conversa com grandes líderes religiosos. Sarcástico, impiedosamente mordaz, dizima o vazio humano com a precisão de um atirador de elite. Em sua melancólica caminhada, já com 65 anos, só esbarra em alguma surpresa em 2 das cenas finais. A primeira ocorre quando um ilusionista faz uma girafa desaparecer, e lhe diz: “É tudo apenas um truque.”. A outra cena acontece quando o protagonista visita o homem q casou com a mulher (já falecida) daquela experiência inesquecível de sua juventude, já casado com uma nova esposa, nada exuberante esteticamente como a primeira. O protagonista acompanha alguns breves momentos extremamente cotidianos do casal (passar roupa, ver novela). Neste instante, ele parece enfim perceber novamente a grande beleza. Só q agora já está emocionalmente necrosado por sua ironia melancólica.
Por último, em “A Juventude” (q soa como uma bilogia com o filme anterior, tomando o tema da melancolia como fio narrativo) Michael Caine vive um maestro aposentado, “à sombra do objeto perdido” (Freud, em “Luto e Melancolia”) – sua esposa falecida. O diretor cria um spa bucólico onde milionários esbarram suas errâncias, à busca de algum norte inspirador, algum oxigênio, um rompante salvador… Idades avançadas ou ideias envelhecidas, potências humanas perecem com seus sintomas neuróticos, numa paz mórbida e sufocada no próprio sarcasmo.
Neste filme, os ícones de sucesso de plástico – diretor de cinema consagrado, ator de franquia famosa, uma bela mulher – são confrontados com a simplicidade de uma criança ou a exuberância de uma Miss Universo. O aniversário do filho da rainha da Inglaterra emblematiza ao máximo o absurdo de nossa cultura. Ao final, Sorrentino submete o maestro protagonista aos caprichos do príncipe, colocando-o como regente em seu festejo. Demasiadamente humano, diria Nietzsche.
Por tudo isso, Paolo Sorrentino conquistou a consistente liberdade de poder contar praticamente qualquer história, pois sua narrativa, estética e questionamento mordaz sobram como mais do q suficientes para compor uma obra-prima. Até hoje, seu tema-norteador tem sido a melancolia, porém a partir de agora pode me contar o q quiser. Eu fico aqui, sonhando acordado.

Travessias do desamparo (“Livre”, “Na Natureza Selvagem” e “Elena”)

Sem sombra de dúvida, “Elena” e “Na Natureza Selvagem” têm mais qualidade q “Livre”. Porém, este último possui vários méritos surpreendentes. Já valeria por suscitar a articulação c/ essas outras obras tão marcantes no cinema.
“Elena”, provavelmente o q vai mais fundo na questão da dor e da busca por voltar a respirar, é um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Petra (a diretora) filma sua história c/ sua irmã Elena, q cometeu suicídio quando Petra ainda era menina. A beleza do amor entre as irmãs é expressa à perfeição, sem o menor traço de pieguice ou de “linguagem interna” não compreensível ao espectador. Petra transmite o atravessamento de sua dor pela perda da irmã, buscando alguma possível e humana sublimação (termo q Freud retirou c/ ótima simplicidade da química: “passagem do estado sólido para o gasoso”). A diretora vai à própria infância para arrancar visceralmente seus pedaços mortos. Sua autenticidade corajosamente ímpar impacta e derruba qualquer um q tenha disponibilidade ao sentir (assim como o psicanalista húngaro Sándor Ferenczi cunhou seu “sentir com”, para falar de sua afetação com seus analisandos). Petra arrisca sua sanidade em busca de algo mais q sobreviver – lembrando o poético trecho “consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade”, da belíssima música de Renato Russo (“Sereníssima”). Atravessa seu fantasma através da arte, assim como tenta o pintor Gorky, personagem do filme “Ararat”, obra-prima de Atom Egoyan. Através da Psicanálise, através da Arte, o mergulho pelo trágico permite uma possibilidade árida, sem garantia alguma.
Em “Na Natureza Selvagem”, Sean Penn expressa magistralmente a busca de um jovem por se livrar da opressão superegoica introjetada pelos valores impostos por seus pais. Conquista o direito a estudar em Harvard (sonho/exigência de seus pais), queima carro e dinheiro – prêmios q eles lhe dão -, e parte para ficar algum tempo no Alasca, totalmente sozinho. Conhece algumas pessoas extremamente interessantes e sensíveis ao longo do percurso, porém nunca se disponibiliza a mais q um “flerte”, pois está fechado em sua reta intenção. O q ele não percebe é q sempre levamos o trágico na mochila, pois não há apagamento possível das memórias afetivas; as milhas de distância podem no máximo ser um paliativo interessante enquanto não é possível enfrentar o fantasma, cortejar a insanidade q Petra desperta de e em Elena, no outro filme. A onipotência/arrogância dos pais do garoto o acompanha ao Alasca, escondida, até ressurgir em sua morte, quando ele acha q pode sobreviver no gélido deserto com apenas um livrinho de plantas comestíveis. Ousado como gente grande, ingênuo como um menininho q foge p/ a casa de árvore no quintal. O “retorno do recalcado”, como nos diz Freud, é implacável, inexorável.
Enfim, voltando ao filme “Livre”, a personagem de Reese Witherspoon busca uma andança de 3 meses numa severa trilha, deserto e neve incluídos. Durante seu percurso, visita sua história c/ a mãe, recentemente morta de um câncer súbito. “Corteja” seus tempos de drogadição e promiscuidade (obviamente sem moralismos aqui), e seus episódios de raiva da mãe, por esta ter escolhido um marido alcoólatra e violento. Machuca seu corpo fisicamente na trilha, como tantas vezes vi pessoas cortando seus pulsos para tentar expurgar suas dores emocionais. Das drogas, passando pela promiscuidade, até o corpo ferido na trilha, a protagonista percorre a “travessia de seu fantasma” (termo bem colocado por Lacan), tentando rasgar sem arrebentar. Afinal, pergunta-se: “Nunca me redimirei?”, “Ou já me redimi?”, “Errei ao me machucar?”, “Ou precisei disto para chegar noutro lugar?”
Portanto, “Livre” merece todo o crédito pelo uso apenas comedido dos clichês hollywoodianos, por alguns questionamentos profundos e por evocar outros filmes de tamanha sensibilidade.