FESTIVAL 2016 (Dicas por estrear)

Aqui vão os destaques de todos os filmes a q assisti neste Festival do Rio, começando pelos q mais me impactaram:

1) “Toni Erdmann”: O melhor dos q assisti no Festival. Rara comédia simples e inteligente, com risos do início ao fim. Um cômico pai percebe q a distância emocional de sua filha – q mora em Budapeste – atingiu níveis excessivos, ao vê-la o tempo todo no celular, durante uma visita dela à família. Ele decide então visitá-la, e invadir com humor seu cotidiano de executiva. Com o tempo, o vazio das amizades e trepadas de sua vida ficam evidentes, e alguma linguagem afetiva – sem pieguice – pode ser iniciada entre eles. Excelente!

2) “Snow Monkey”: O diretor australiano George Gittoes realiza um excelente documentário sobre o cotidiano de crianças muito pobres nas ruas d Jalalabad, Afeganistão. Violência, roubos, ludicidade, criatividade, afeto, fome, miséria. O diretor colhe tantas imagens incríveis, e toca em tantos temas relevantes, q merecia q fossem 4 filmes ao invés de 1. Altíssimo nível de cinema.

3) “Os Garotos nas Árvores”: Surpreendente. É bastante raro q o cinema de suspense possa abordar com extrema categoria questões emocionais profundas, numa proposta onde o medo tende a ser o protagonista exclusivo (“Deixe Ela Entrar” é outra ótima exceção). Diversas situações delicadas do tenso período da adolescência de um grupo de garotos é condensada num dia de Halloween. Bullying, afeto, paixão, insegurança, autoafirmação, amizade, vazio emocional. Cinema de primeira.

4) “Souvenir”: Brilhante atuação da melhor atriz do mundo, Isabelle Huppert (“A Professora de Piano”). História simples, realizada com bastante competência. Um encontro com um colega de trabalho mais jovem quebra a “estabilidade” melancólica de uma ex-cantora. Atuações excelentes, articulação drama-comédia feita com fino trato. Vez por outra o diretor resvala em alguma pieguice, mas nada q comprometa o resultado.

5) “Dog Eat Dog”: Ótimo. O diretor Paul Schrader reúne o versátil e talentoso Willem Dafoe com Nicolas Cage (muito bem, em seu único personagem da vida), e nos apresenta um divertidíssimo filme, q lembra o cinema cult de Guy Ritchie (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch – Porcos e diamantes”). Drogas, humor ácido, roteiro despretensioso, ênfase nas atuações e na refinada estética de um thriller delicioso.

6) “O Filho de Joseph”: Ótimo. Um rapaz vive com sua mãe, q eternamente nega revelar o nome e paradeiro do pai dele. Até q, fuçando nas coisas da mãe, descobre uma carta q o leva a um frio e pedante dono de uma editora (o brilhante Mathieu Amalric). A partir daí, os personagens vão esbarrando em novos arranjos relacionais. Excelentes atuações, direção precisa, bem para além do roteiro em discussão.

7) “Holocausto Brasileiro”: Excelente retrato do genocídio cometido contra os pacientes psiquiátricos do hospício de Barbacena, em Minas Gerais. A diretora Daniela Arbex adapta seu próprio livro, expondo uma reconstrução da tragédia dos pacientes – torturados, humilhados e assassinados – e seus familiares. Ressalta tb a ignorância de alguns agentes “de saúde”, sem contudo relevar suas responsabilidades criminais (como a personagem de Kate Winslet em “O Leitor”). Um soco no estômago.

8) “Much Loved”: Excelente filme marroquino sobre a vida íntima de 4 prostitutas. Seus afetos, parceria, resistência a humilhações. Atuações de alto nível, direção bastante competente, tensões precisas, sem apelações fáceis.

9) “Redemption Song”: Muito bom. Documentário sobre a questão dos refugiados na atualidade. Senegal, Itália, Brasil e Guiana são cenários através dos quais a ilusão de vida melhor é ensaiada. A complexidade do tema é respeitada pela direção do filme, q opta por abordar apenas um viés, viabilizando assim algum aprofundamento.

10) “As Confissões”: Muito bom. O diretor italiano Roberto Andò constrói um cenário bastante interessante, com personagens carismáticos e atuações convincentes. Toni Servillo (“A Grande Beleza”) representa o mesmo papel de sempre: blasé, arrogante disfarçado de eterna meditação. Daniel Auteuil, um dos grandes atores do mundo (“O Closet”, “Pintar ou Fazer Amor”), faz uma participação especial. Questiona e satiriza as genocidas decisões sobre a economia mundial.

11) “É Apenas o Fim do Mundo”: Xavier Dolan – um dos melhores diretores do mundo, juntamente com Wim Wenders e Woody Allen – faz um ótimo filme sobre a densidade trágica da dinâmica neurótica de uma família (sua temática preferida). Excelentes diálogos e atuações, além de sua já tradicional câmera esteticamente singular. Lembra o peso de “Sonata de Outono” (Bergman), especialmente nas cenas protagonizadas por Vincent Cassel (“Irreversível”, “O Apartamento”), sempre brilhante. Exaure o espectador pela claustrofobia bergmaniana, apesar de suas colorações almodovarianas.

12) “A Região Selvagem”: Ótima direção do mexicano Amat Escalante (“Heli”). História interessante, tensão muito bem construída. O único senão é o toque surrealista, q traz um acabamento pouco condizente com a força do restante do filme.

13) “No Andar de Baixo”: Muito bom. Thriller psicológico sobre 2 casais de novos vizinhos, ambos grávidos. Ótimo clima de tensão e suspense. No entanto, o último quarto do filme vai se mostrando previsível, apesar de alguma surpresa ainda restar.

14) “Barakah com Barakah”: Ótima comédia romântica saudita sobre um fiscal da prefeitura e uma modelo fotográfica famosa no YouTube por seus posts sem rosto. Claro q o filme esbarra nas idas e vindas tipicamente novelescas, mas o saldo é despretensiosamente saboroso. Ótimas atuações.

15) “Paraíso”: O destaque do filme é a excelente direção do russo Andreï Kontchalovski. A câmera em semi-close e a fotografia em PB, apesar de não serem inovações, foram escolhidas e realizadas com extrema qualidade. O roteiro e o ritmo estão um tanto abaixo, caso contrário poderia ser uma obra-prima.

16) “Primeiro Janeiro”: Apesar de um tanto gasta, a expressão “cinema de autor” ainda cabe em algumas situações, como neste bom filme do argentino Darío Mascambroni. O roteiro é ultra simples, a duração é de apenas 65′. O diretor sabia bem o q tinha em mente: a transição infância-adolescência de um garoto, vivida através de uma trilha como seu pai (antiga tradição familiar). Amor e diferenças são mostrados de forma bela e sutil.

17) “Amnésia”: Bom. Uma alemã de uns cinquenta e tantos anos anos vive reclusa num ponto tranquilo da famosa ilha de Ibiza, quando um novo vizinho de menos de 30 se aproxima de modo bastante delicado. As questões de idade e as memórias da 2a Guerra são apresentadas de forma simples e interessante.

18) “A Terra dos Fantasmas Vista pelos Bushmen”: Interessante doc alemão sobre uma tribo na Namíbia, e o impacto de seu novo contato com outros povos africanos e europeus.

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O Novo Cinema Soviético (“Tangerines” e “A Ilha do Milharal”)

O Oscar premia todo tipo de filme: de obras-primas como “O Poderoso Chefão” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”, a equívocos como “Quem Quer Ser um Milionário?” e “Argo”. Dos eternos Al Pacino e Jack Nicholson, aos fracos Jeff Bridges e Cuba Gooding Jr. Das brilhantes Julianne Moore e Judi Dench, às sem adjetivos Sandra Bullock e Kim Basinger. Isso para citar apenas os anos mais recentes. Mas considero q, sem sombra de dúvidas, o legado mais respeitável e o único praticamente infalível desta premiação tendenciosa se refere aos indicados a filme estrangeiro.

Irônico q o maior espetáculo hollywoodiano erre pouco apenas no cinema não americano… Quando digo q é um braço bastante preciso de premiação, me refiro apenas ao fato de q praticamente todos os indicados são excelentes filmes, pérolas q renderam prazeres inesquecíveis. Claro q há uma lista infindável de obras-primas sem menção neste Oscar, como “A Professora de Piano” (meu filme preferido) e tantos outros (ver mais no post “Grande Lista de Filmes”, aqui neste blog). Igualmente descontemplados são atores como Isabelle Huppert (a melhor atriz do mundo, incomparável), Mathieu Amalric e Ricardo Darín.

Entre os 9 pré-indicados pra 2015 (além dos 5 finalistas, os outros também têm grande valor), além do brilhante polonês “Ida” (merecidamente vencedor), do unânime argentino “Relatos Selvagens” e do ótimo sueco “Força Maior”, houve outras 2 belas surpresas q descobri através desta fonte: “Tangerines” (representante da Estônia) e “A Ilha do Milharal” (da Geórgia). Dois países da extinta União Soviética, ainda sem tradição no cenário mundial, dois excelentes filmes de arte. Ambos trazem a guerra da Abecásia (na Geórgia) como pano de fundo.

No primeiro, estoniano, pessoas abandonam suas casas diante de um panorama de guerra. Um senhor de 60 anos (o protagonista) decide ficar em sua terra, não acompanhando sua família na emigração. Certo dia, dois soldados entram em sua casa, em tom sutilmente intimidador. Bem tratados, saem agradecidos, levando pão e água. No dia seguinte, tiroteio em frente à propriedade. Os 2 lados em guerra saem baleados, quase todos mortos. O senhor carrega um soldado baleado (um dos q ele havia recepcionado na véspera), abrigando-o num de seus quartos. Quando ia enterrando os outros, descobre mais um ainda vivo e também o acolhe. A questão é q este é do exército q lutava contra o outro…

Como o primeiro combatente se recupera mais rápido dos ferimentos, avisa ao “velho” (modo como ele se dirige ao dono da casa) q matará o outro soldado, responsável pela morte de seu companheiro no combate. O senhor escuta, calado. No dia seguinte, diante da mesma ameaça, replica: “Dentro da minha casa não permitirei.” O soldado, surpreso, acata: “Assim q ele botar a cara pra fora da casa, eu o mato.” O senhor permanece em silêncio.

A cada dia q passa, o senhor vai transmitindo valores, apenas através do seu modo de cuidar dos 2 homens. As raras palavras q fala são para conter os instantes tensos entre os antagonistas, à beira das vias de fato. Após uns dias, o senhor faz uma provocação ao primeiro combatente: “Se o outro botar o pau pra fora da casa pra mijar, vc atira no pau?” O soldado nada diz, quase como se quisesse sorrir. Mais tarde, fazem um churrasco no quintal, numa espécie de trégua tácita. Até chegar o dia em q precisariam lutar do mesmo lado. (Aí deixo para vcs assistirem, já adiantei demais…)

A beleza do diretor é orquestrar vários personagens obsessivos num pequeno cenário também obsessivo (onde cada detalhe pode de fato acabar em tragédia), em um contexto maior de tensão bélica no país, e ainda assim apresentar ao espectador a sensibilidade afetiva emanada pelo personagem do senhor e, gradativamente, percebida e recebida pelos dois soldados. Tudo isso numa linguagem extremamente contida, em todos os sentidos. Belíssimo. A eloquência “bege” do cinema nórdico (ver mais no post “’Cinema bege’, a última revolução no cinema”, aqui neste blog) conversa de perto com este “cinema soviético”.

O segundo filme, “A Ilha do Milharal”, apresenta um belo e duro cenário pós-guerra onde um velho camponês descobre uma “nova ilha” – na estação de baixa do volume de água de um rio, “nascem” micro ilhas –, com boas condições de plantio. Constrói sozinho a estrutura de uma casa de madeira, depois traz sua neta para juntos finalizarem sua nova morada, e uma plantação de milho no espaço restante da “ilha”.

A partir daí, tensões do pós-guerra e do amadurecimento da púbere menina são trabalhadas com extrema delicadeza e precisão. É bastante possível traçar um paralelo com “Primavera, Verão, Outono, Inverno e… Primavera”, obra-prima de Kim Ki-duk, onde um velho e um garoto atravessam as 4 estações como metáfora das agruras do crescimento, tudo num belíssimo cenário duma ilha entre montanhas. Mais uma vez, todos esses filmes apresentam suas questões através de personagens extremamente obsessivos, sempre com gestual minimalista.

Dois belíssimos filmes expondo intensidades emocionais em relações obsessivamente delicadas, com economia e eloquência. Quem sabe até um novo polo cinematográfico.