Melhores filmes em cartaz (atualizado constantemente)

1) “O Cidadão Ilustre”: Obra-prima. Os diretores argentinos acertaram de ponta a ponta: construção de roteiro perfeita, argumento consistente, tensão crível, humor ácido e inteligente, e atuação impecável do excelente protagonista Oscar Martínez. Brilhante.

2) “Lady Macbeth”: Excelente. Um tratado precioso e preciso sobre a perversão. O diretor estreante William Oldroyd conduz com maestria de veterano as sutilezas da história de uma mulher oprimida “virando o jogo” contra uma lógica machista do século XIX. O roteiro é todo pensado em uma linguagem sadomasoquista. Polanski (“Lua de Fel”) aplaudiria esta obra, imperdível.

3) “Últimos Dias em Havana”: Ótimo. Triste e melancólica história de um homem soropositivo, nos cuidados terminais de um fiel amigo obsessivo e desvitalizado. O diretor nos expõe uma Havana em decomposição, assim como o protagonista. Vazio nas relações, desesperança. Apesar disso, um belo toque de humor e afeto.

4) “O Filme da Minha Vida”: Ótimo! O filme começa apenas ok, cresce muito ao longo da projeção, até encerrar com maestria. Selton Mello (de “O Cheiro do Ralo”), o melhor ator do país, vai muito bem como diretor (como em “O Palhaço”), ainda q naturalmente possa evoluir nesta função. Ótimas frases, atuações em muito bom nível, destaque para o personagem do próprio Selton.

5) “Annabelle 2: A criação do mal”: Ótimo! Todos os filmes tocados pelo aqui produtor James Wan (diretor dos excelentes “Invocação do Mal” e “Sobrenatural”) têm alcançado uma excelência diferenciada no geralmente fraco mundo do cinema de horror. Sustos constantes, atmosfera bem criada, enfim, uma pérola para os fãs do gênero.

6) “Monsieur & Madame Adelman”: Muito bom. A história de amor e de vida de um casal atípico, desde a juventude até a morte. Numa pegada bem humorada, quase sátira, o filme trata das idiossincrasias e incoerências das escolhas cotidianas, fracasso e sucesso, nos bastidores da biografia de um grande escritor e sua esposa. Tem um estilo próximo a “Eu, Mamãe e os Meninos”, porém o roteiro escorrega em alguns momentos, comprometendo significativamente o enorme potencial da obra.

7) “Uma Mulher Fantástica”: Muito bom, especialmente pela ótima atuação da protagonista transexual, Daniele Vega, q segura o filme. O diretor, no entanto, patina várias vezes na construção da trama, como em 2 cenas surrealistas, desconectadas da linguagem adotada no restante do filme.

8) EXTRAS IMPERDÍVEIS:

8.1) “Fantasia” e “Apocalipse Now Redux” (na Mostra “Som: A história que não vemos”)

8.2) “Histórias que só Existem quando Lembradas”

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Pedofilia, aberração em “Una”?

Georges Bataille, em “O Erotismo” (um dos 5 melhores livros q li na vida!), dizia q a cada momento da cultura a sociedade elege uma “figura dilacerante”, uma aberração, q representaria o ápice da excrescência humana, o q nos forçaria a repelir inevitavelmente, uma repulsa urgente, exigência pulsional (Freud) necessária à nossa preservação subjetiva. “Erotismo”, para Bataille, numa de suas acepções, significa “a relação de atração ou repulsa inevitável com algum objeto”. A sociedade, portanto, sempre criará os “monstros da vez”, os párias unânimes, capazes de enojar multidões, instigando ódio, distância ou, no limite, linchamento.

No mito de Satã (muito bem comentado num texto de Arnaldo Chuster), bem pr’além de qualquer religiosidade, Lúcifer (anjo da luz, dileto de Deus) seria expulso do paraíso por excesso de lucidez, “caindo do céu”, perdendo a “graça divina”, caindo em “desgraça”, fadado à escuridão. Lúcifer “cai em si”. Proponho, a partir daí, uma articulação: nossa cultura acostumou-se ao ato falho de dizer q “sofreu uma desilusão”. Do q o humano sofre? De “desilusão” ou de ilusão??? Nosso desamparo fundamental (Freud) convida a buscarmos sempre um cobertor amigo, um substituto por vezes caricato do útero materno perdido. Somos tementes a Deus, a Freud, aos pais, a uma posição política, ou a uma relação amorosa. Sofremos, portanto, de uma grande e crônica ilusão.

No entanto, por conta de nossa condição inevitável de ambivalência emocional, vacilamos. O paradoxo nos salva da morte no útero, daí duvidamos. Alguma lucidez recalcada provoca o retorno fundamental do Lúcifer de nossas transgressões. Sentimos uma atração incômoda pelo proibido, pelo abjeto, pelo sujo. Apedrejamos e perdoamos, não pela suposta soberba de um abnegado perdão, vendido por algumas religiões; fazemos este duplo movimento, contradição pura, pq internamente necessitamos, como uma “nova ação psíquica” (Freud), uma bálsamo oxigenante diante de uma asfixia de um regime do impossível do grande Outro (Lacan). A fúria de nossos desejos e ódios se expressa no nojo seguido de complacência, no horror seguido de tesão. Podem encontrar isto em Freud e Bataille, ou em Buñuel e Pasolini, Deus e Lúcifer.

Nos dias atuais, essa figura abjeta, capaz de enojar a todos, seria o pedófilo. Unanimidade, este ser consegue ser massacrado e ultrajado até nos presídios. É o estupro consentido, a justiça reconquistada, o ódio acalmado. Como no brilhante filme “Sexo por Compaixão”, apedrejamos a “Geni” q nos causa um tesão estranho (Freud), um incômodo q precisamos rechaçar, recalcar, pois seu efeito nos é dilacerante (Bataille), insuportável. Maria Rita Kehl propõe q o sujeito q se diz “de caráter ilibado” não passa de um neurótico ressentido, negando a cisão fundante do humano, fadado ao eterno conflito psíquico de q Freud tanto nos falou. Portanto, a despeito do nojo/ódio, precisamos buscar alguma conciliação, ainda q parcial, com o horror da pedofilia.

Noutros momentos históricos, já odiamos os negros, os judeus ou os homossexuais. Obviamente, aqui não cabe compará-los, ou equipará-los, mas apenas questionar este nojo maniqueísta q nos faz ter tesão numa roupa de colegial do sex shop, logo após apedrejarmos a pedofilia. Não há aqui, em absoluto, nenhuma proposição de legalização do ato pedófilo. Apenas uma aproximação de mais essa aberração, demasiadamente humana.

No filme “Una”, o excelente diretor australiano Benedict Andrews nos apresenta uma “pedofilia consentida”, o q por si só já desorganiza nossas estruturas prévias. Com isto vai muito mais além do bom e superestimado “A Caça”, já q este apenas nos apresenta o desconforto da facilidade com q podemos acatar e criar um ser abjeto, a partir de sutilezas imaginárias. Como dizia Freud, se tudo q minhas histéricas dizem for verdade, metade dos pais da Europa é pedófila…

A discussão em “Una” é revolucionária, muito à frente do nosso tempo. Antimaniqueísta ao extremo, aqui não há vítimas ou vilões, mocinhos ou bandidos. Também não há complacência, ou negação de danos emocionais à menina. O filme é para além. O diretor insiste em pesquisar as emoções dos personagens, à parte do contexto cultural, sem no entanto negá-lo, posto q o pedófilo é preso.

Uma das questões fundamentais abordadas é a interrupção do curso da relação amorosa entre a menina e o adulto. A menina, agora mulher, quer acertar as contas com sua própria história, abalroada pelas leis da família e do Estado. Vai ao encontro do homem q amou, ou ama, reivindicando a legitimidade de seu sentir, já q agora a sociedade não constitui impedimentos, posto q ambos são, em idade, igualmente adultos.

A história de amor desses dois humanos precisava de um desenrolar, de um desfecho, precisava da beleza de uma desilusão, sem nenhuma mediação social. A menina precisava “resolver” seu tesão e sua raiva, seu amor e sua ilusão. Para tal, prepara-se, maquiagem em riste, exigindo reconhecimento de q agora é uma mulher.

“Una” é a obra-prima à frente do nosso tempo, sobre a ultimização (Fernando Pessoa) de um amor, para além dos Montecchios e Capuletos (Shakespeare) de nossa sociedade atual, q somos nós mesmos. Suportá-lo nos reinventa e desmascara, nos disponibiliza a outras aberrações, novos ódios e repugnâncias. Q venham os próximos, quem sabe os terroristas…

Melhores filmes em cartaz (atualizado constantemente)

1) “O Cidadão Ilustre”: Obra-prima. Os diretores argentinos acertaram de ponta a ponta: construção de roteiro perfeita, argumento consistente, tensão crível, humor ácido e inteligente, e atuação impecável do excelente protagonista Oscar Martínez. Brilhante.

2) “Frantz”: Excelente. Jovem soldado morre na 1a Guerra, deixando seus pais e sua noiva atolados em uma forte melancolia, sobrevivendo “à sombra do objeto perdido” (Freud, em “Luto e Melancolia”). O diretor cult François Ozon apresenta a história de todos estes personagens, abalroados por um suposto amigo do falecido, q traz um pouco de conforto à família, ao contar detalhes da vida do ente perdido. Ozon descreve à perfeição o universo dos personagens – todos obsessivos -, impedidos de continuar com a vida, quiçá do direito a qualquer alegria. Belíssimo, ultra sensível.

FESTIVAL 2016 (Dicas por estrear)

Aqui vão os destaques de todos os filmes a q assisti neste Festival do Rio, começando pelos q mais me impactaram:

1) “Toni Erdmann”: O melhor dos q assisti no Festival. Rara comédia simples e inteligente, com risos do início ao fim. Um cômico pai percebe q a distância emocional de sua filha – q mora em Budapeste – atingiu níveis excessivos, ao vê-la o tempo todo no celular, durante uma visita dela à família. Ele decide então visitá-la, e invadir com humor seu cotidiano de executiva. Com o tempo, o vazio das amizades e trepadas de sua vida ficam evidentes, e alguma linguagem afetiva – sem pieguice – pode ser iniciada entre eles. Excelente!

2) “Snow Monkey”: O diretor australiano George Gittoes realiza um excelente documentário sobre o cotidiano de crianças muito pobres nas ruas d Jalalabad, Afeganistão. Violência, roubos, ludicidade, criatividade, afeto, fome, miséria. O diretor colhe tantas imagens incríveis, e toca em tantos temas relevantes, q merecia q fossem 4 filmes ao invés de 1. Altíssimo nível de cinema.

3) “Os Garotos nas Árvores”: Surpreendente. É bastante raro q o cinema de suspense possa abordar com extrema categoria questões emocionais profundas, numa proposta onde o medo tende a ser o protagonista exclusivo (“Deixe Ela Entrar” é outra ótima exceção). Diversas situações delicadas do tenso período da adolescência de um grupo de garotos é condensada num dia de Halloween. Bullying, afeto, paixão, insegurança, autoafirmação, amizade, vazio emocional. Cinema de primeira.

4) “Souvenir”: Brilhante atuação da melhor atriz do mundo, Isabelle Huppert (“A Professora de Piano”). História simples, realizada com bastante competência. Um encontro com um colega de trabalho mais jovem quebra a “estabilidade” melancólica de uma ex-cantora. Atuações excelentes, articulação drama-comédia feita com fino trato. Vez por outra o diretor resvala em alguma pieguice, mas nada q comprometa o resultado.

5) “Dog Eat Dog”: Ótimo. O diretor Paul Schrader reúne o versátil e talentoso Willem Dafoe com Nicolas Cage (muito bem, em seu único personagem da vida), e nos apresenta um divertidíssimo filme, q lembra o cinema cult de Guy Ritchie (“Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch – Porcos e diamantes”). Drogas, humor ácido, roteiro despretensioso, ênfase nas atuações e na refinada estética de um thriller delicioso.

6) “O Filho de Joseph”: Ótimo. Um rapaz vive com sua mãe, q eternamente nega revelar o nome e paradeiro do pai dele. Até q, fuçando nas coisas da mãe, descobre uma carta q o leva a um frio e pedante dono de uma editora (o brilhante Mathieu Amalric). A partir daí, os personagens vão esbarrando em novos arranjos relacionais. Excelentes atuações, direção precisa, bem para além do roteiro em discussão.

7) “Holocausto Brasileiro”: Excelente retrato do genocídio cometido contra os pacientes psiquiátricos do hospício de Barbacena, em Minas Gerais. A diretora Daniela Arbex adapta seu próprio livro, expondo uma reconstrução da tragédia dos pacientes – torturados, humilhados e assassinados – e seus familiares. Ressalta tb a ignorância de alguns agentes “de saúde”, sem contudo relevar suas responsabilidades criminais (como a personagem de Kate Winslet em “O Leitor”). Um soco no estômago.

8) “Much Loved”: Excelente filme marroquino sobre a vida íntima de 4 prostitutas. Seus afetos, parceria, resistência a humilhações. Atuações de alto nível, direção bastante competente, tensões precisas, sem apelações fáceis.

9) “Redemption Song”: Muito bom. Documentário sobre a questão dos refugiados na atualidade. Senegal, Itália, Brasil e Guiana são cenários através dos quais a ilusão de vida melhor é ensaiada. A complexidade do tema é respeitada pela direção do filme, q opta por abordar apenas um viés, viabilizando assim algum aprofundamento.

10) “As Confissões”: Muito bom. O diretor italiano Roberto Andò constrói um cenário bastante interessante, com personagens carismáticos e atuações convincentes. Toni Servillo (“A Grande Beleza”) representa o mesmo papel de sempre: blasé, arrogante disfarçado de eterna meditação. Daniel Auteuil, um dos grandes atores do mundo (“O Closet”, “Pintar ou Fazer Amor”), faz uma participação especial. Questiona e satiriza as genocidas decisões sobre a economia mundial.

11) “É Apenas o Fim do Mundo”: Xavier Dolan – um dos melhores diretores do mundo, juntamente com Wim Wenders e Woody Allen – faz um ótimo filme sobre a densidade trágica da dinâmica neurótica de uma família (sua temática preferida). Excelentes diálogos e atuações, além de sua já tradicional câmera esteticamente singular. Lembra o peso de “Sonata de Outono” (Bergman), especialmente nas cenas protagonizadas por Vincent Cassel (“Irreversível”, “O Apartamento”), sempre brilhante. Exaure o espectador pela claustrofobia bergmaniana, apesar de suas colorações almodovarianas.

12) “A Região Selvagem”: Ótima direção do mexicano Amat Escalante (“Heli”). História interessante, tensão muito bem construída. O único senão é o toque surrealista, q traz um acabamento pouco condizente com a força do restante do filme.

13) “No Andar de Baixo”: Muito bom. Thriller psicológico sobre 2 casais de novos vizinhos, ambos grávidos. Ótimo clima de tensão e suspense. No entanto, o último quarto do filme vai se mostrando previsível, apesar de alguma surpresa ainda restar.

14) “Barakah com Barakah”: Ótima comédia romântica saudita sobre um fiscal da prefeitura e uma modelo fotográfica famosa no YouTube por seus posts sem rosto. Claro q o filme esbarra nas idas e vindas tipicamente novelescas, mas o saldo é despretensiosamente saboroso. Ótimas atuações.

15) “Paraíso”: O destaque do filme é a excelente direção do russo Andreï Kontchalovski. A câmera em semi-close e a fotografia em PB, apesar de não serem inovações, foram escolhidas e realizadas com extrema qualidade. O roteiro e o ritmo estão um tanto abaixo, caso contrário poderia ser uma obra-prima.

16) “Primeiro Janeiro”: Apesar de um tanto gasta, a expressão “cinema de autor” ainda cabe em algumas situações, como neste bom filme do argentino Darío Mascambroni. O roteiro é ultra simples, a duração é de apenas 65′. O diretor sabia bem o q tinha em mente: a transição infância-adolescência de um garoto, vivida através de uma trilha como seu pai (antiga tradição familiar). Amor e diferenças são mostrados de forma bela e sutil.

17) “Amnésia”: Bom. Uma alemã de uns cinquenta e tantos anos anos vive reclusa num ponto tranquilo da famosa ilha de Ibiza, quando um novo vizinho de menos de 30 se aproxima de modo bastante delicado. As questões de idade e as memórias da 2a Guerra são apresentadas de forma simples e interessante.

18) “A Terra dos Fantasmas Vista pelos Bushmen”: Interessante doc alemão sobre uma tribo na Namíbia, e o impacto de seu novo contato com outros povos africanos e europeus.

A Foto do Trauma (“Na Ventania”)

Há muito tempo eu não vivia uma sessão memorável no cinema, daquelas de alterar todo o funcionamento corporal, lágrimas e silêncio, estupefação plena, como o q ocorreu ao assistir à obra-prima “Na Ventania”. Dos em torno de 100 filmes q consigo assistir por ano, muitos são excelentes. Nesses, encontro apenas uns 5 maravilhosos, em média; 1 ou 2 desses, considero obras-primas. “Na Ventania” é um degrau acima, é um dos inesquecíveis, eternos, a entrar na lista dos melhores da vida, algo q demora alguns anos a surgir…

Fotografia poética. Poderia ficar com apenas esta tosca tentativa de “definição”. Isto pq o delicado poder da fotografia enquanto canal de transmissão especialmente tende a calar, a praticamente impedir o acesso sempre capenga das palavras. Poderia-se afirmar q todas as expressões artísticas vão aonde o verbo não alcança. Ok, porém costumeiramente nos aventuramos a comentar filmes ou livros, tal como aqui neste blog. Artes como Pintura, Fotografia e Dança talvez provoquem um outro percurso emocional, por onde o dito tem pouco ou nenhum recurso…

Enfim, já q essa ventania me assoprou a escrever, q isso seja o q puder. O diretor Martti Helde (Estônia) expõe de forma dura, seca e nada apelativa a dor da Guerra (tema já tão batido no cinema). Para tal, parte das cartas de uma mulher (estudante de filosofia, isso faz diferença) q foi levada a um campo de trabalho forçado com sua filha pequena, a seu marido numa prisão de guerra.

A brilhante câmera do diretor congela cada cena (os atores ficam parados) e a percorre muito vagarosamente, frame a frame, trazendo uma luz do insuportável ao trauma, ao absurdo (ao Real de Lacan, para fazer um paralelo psicanalítico). Com isso, inscreve a dor impossível como possível, ao menos parcialmente, é claro.

A metáfora do traumático, “paralisada” pela fotografia, traz ao espectador uma tese sobre a memória humana. De q forma – pensaria o diretor do filme – a emoção traumática tatua a carne do ser humano durante a Guerra? Exatamente através de fotografias, assim o bárbaro marca em definitivo o corpo subjetivo, inscrevendo o surrealismo das imagens sem representação outra, apenas um choque, como um flash das máquinas mais antigas.

Assim, o diretor de “Na Ventania” nos brinda com uma aula de fazer cinema, um jorro de sensibilidade, uma hipótese psíquica sobre a memória durante a Guerra (aqui, o holocausto soviético). Martti Helde não diferencia as dores – da separação da família à morte concreta, das sofridas imagens dos outros às de si mesmo -, apresenta-as todas no mesmo vagar, na toada do insuportável q tem q caber. Outros diretores, como o magistral Alain Resnais (“Hiroshima, Mon Amour”, “Noite e Neblina”) já haviam realizado obras marcantes através da fotografia e sobre o mesmo tema do absurdo da Guerra, mas arrisco dizer q aqui foi inventada uma outra forma de criação cinematográfica. Com o bônus de uma tese metapsicológica sobre a memória do traumático. Brilhante, arrebatador. Tato pra atuar o tatuar.

 

Errância psicótica em “A Senhora da Van”

Tanto no senso comum quanto para a maioria dos psicanalistas, psicose é sinônimo de surtos, delírios e alucinações. No pior dos casos (infelizmente muito comum), psicose é loucura, estar fora da realidade. O projeto clínico mais comum com os psicóticos sempre aponta para uma “neurotização” da subjetividade, tomando – ainda q inconscientemente – o funcionamento psíquico do psicanalista como parâmetro de “normalidade”. Claro q há alguns analistas q fogem desse absurdo, assim como na filosofia de Deleuze, por exemplo.

Mesmo quando a psicose não é ostensivamente pejorativizada (fato raríssimo), seu potencial é extremamente subdimensionado. Vivemos num tempo de glamourização do “deixa a vida me levar”, errantes, à deriva – efeito, entre outras questões, de uma crônica falta de autoquestionamento humano. O psicanalista Philippe Julien nomeia esse estado de “paranoia comum”.

Contardo Calligaris, outro brilhante psicanalista, propõe pensarmos a errância como uma “lógica psicótica sem surtos, delírios ou alucinações”. Diz q os psicóticos funcionam sem os referenciais típicos dos neuróticos, mais disponíveis a qualquer acontecimento, não regidos pelas mesmas leis do cotidiano instituído (“normótico”). Esta disponibilidade não é uma glamourização da psicose – pois se assim fosse, daria tudo na mesma, seria apenas retórica vazia.

Grosso modo, por exemplo: diante de uma placa central na estrada, o psicótico pode olhar para outra coisa, não ver a placa. Isto, como tudo na vida, tem repercussões potentes e outras sofridas.

No brilhante filme “A Senhora da Van”, a protagonista (interpretada por Maggie Smith, soberba) vive uma mulher errante, numa mendicância motorizada. Estaciona – em definitivo – em frente à casa de um escritor (vivido por Alex Jennings, magnífico). A vizinhança londrina – extremamente obsessiva e maledicente – rapidamente a deprecia, fazendo o papel da sociedade alienada/alienante, representando uma lógica manicomial, excludente.

O escritor, igualmente londrino-obsessivo porém bastante humano, observa a nova “vizinha” atentamente. Gradualmente, vai se aproximando da senhora, com pequenos gestos de ajuda, sempre em tons extremamente contidos. A vizinha, com o simbólico nome de “Mary Shepherd”, nunca agradece (ao menos nos moldes a q estamos neuroticamente acostumados).

O excelente diretor Nicholas Hytner orquestra à perfeição o “casal” protagonista, em atuações memoráveis, impecáveis, dignas de qualquer prêmio cinematográfico. O personagem do escritor – mais humanizado – dialoga diariamente com seu alter ego, vivido como faceta um tanto mais austera, sempre com um olhar de reprovação superegoica. O escritor “toca a vida”, falando com a vizinha; enquanto o alter ego apenas observa, coletando dados para um futuro livro, olhando a vida pela janela.

Uma Londres solitária q sofre silenciosamente a ausência de contato físico, imersa num horror inconsciente à vida, sempre protegida por teorizações sobre o cotidiano: este é o cenário esplendidamente retratado pela direção meticulosa do filme.

A senhora passa a estacionar sua van no quintal do escritor, onde fica por 15 anos. A fábula acompanha a aproximação dos protagonistas, metaforizando a inclusão gradual da psicose na sociedade, processo árduo, rascante.

Paralelamente, o escritor recebe jovens rapazes à noite, numa preconceituosa Londres dos anos 70. O diretor acerta em cheio ao não aprofundar esta parte da trama, deixando bem clara sua opção de figura e fundo.

Enfim, o resultado é um brilhante tratado sobre errância psicótica, obsessão londrina, solidão resignada, vida teorizada à distância, exclusão e inclusão. Apesar dos tons de fábula, não nos poupa dos odores fétidos de nossa demasiada humanidade.

15 Melhores Filmes Brasileiros de Todos os Tempos

Sempre resisti à ideia de fazer este tipo de lista dos “melhores”. Sempre achei q isso não servia pra praticamente nada, apenas um exercício de vaidade pública. Mudei de ideia, hj penso q pode ser apenas uma troca de experiências e sensações, prazerosa e despretensiosa.

Listar os melhores filmes sempre provoca justos questionamentos, como: “Faltou o Glauber!!”, “Sem Nelson Pereira dos Santos não faz sentido.”. Enfim, só o q sempre resta é fazer algo pessoal. Então, o critério aqui será: os 15 brasileiros q mais me afetaram, impactaram. Não vou discutir aspectos técnicos, nem qualidade artística do diretor ou das atuações, especificamente. Tudo ficará incluído nesta categoria escolhida, nomeada “afetação/impacto/atravessamento”. Por último, “Por que 15 e não 10, ou 50?”: pq este número acabou sendo resultado dos q não consegui excluir. Os restantes q também adorei estão na Grande Lista (ler mais no post “Grande Lista de Filmes (atualizada constantemente)”, aqui neste blog.

Sem mais delongas, aqui vão os 15, em ardem de afetação, c/ breves comentários:

1) “Janela da Alma”: Maravilhoso, poético, irretocável. João Jardim e Walter Carvalho dirigem Wim Wenders, Saramago, Manoel de Barros, Oliver Sacks, Hermeto Pascoal, João Ubaldo, etc. Emocionante, depoimentos extremamente inteligentes e sensíveis.

2) “Vinícius”: Além de Vinícius de Moraes ser um poeta dos maiores, o diretor Miguel Faria Jr. apresenta de forma preciosa sua história, parceiros, idiossincrasias, polêmicas, intensidades. Inúmeras falas inesquecíveis, como as de Ferreira Gullar, Maria Bethânia, Chico Buarque e Tonia Carrero. Além de interpretações tocantes de suas músicas, como a de Mônica Salmaso. O único senão é a presença tosca da fraquíssima Camila Morgado.

3) “Elena”: Obra-prima de máxima sensibilidade de Petra Costa, a melhor diretora brasileira. Filme radicalmente autoral, para além de ser um doc autobiográfico. O atravessamento de sua dor pela perda da irmã Elena é vivido visceralmente, sem concessões, até q possa, enfim, voltar a respirar. Petra filma à perfeição, tanto dor, quanto amor, melancolia (da mãe) e a própria sublimação de seu fantasma.

4) “Moscou”: A obra-prima máxima do melhor documentarista do Brasil, e um dos mais importantes do mundo: Eduardo Coutinho. Seguindo a potência de seu filme anterior “Jogo de Cena”, outra obra-prima, o diretor aprofunda sua criatividade e sensibilidade artística filmando o Grupo Galpão de teatro ensaiar uma peça de Tchekhov, q nunca seria exibida ao público. Os atores se revezam ensaiando papéis diferentes, o q provoca um jorro de afetação no espectador, pois este recurso lança cada personagem com muito mais força, transmitido por mais de um ator. Incrível.

5) “Ônibus 174”: Excelente doc de José Padilha, um de nossos melhores diretores. Contundente, sério e minucioso. A tragédia do sequestro de um ônibus na Zona Sul do Rio de Janeiro sendo contada de forma a retratar a “invisibilidade” dos meninos de rua, e os horrores de suas história de vida. O sequestrador, na infância, assistiu à sua mãe ser degolada na porta de sua casa, e anos depois esteve entre os meninos da chamada “chacina da Candelária”, onde 8 adolescentes foram gratuitamente assassinados por policiais militares. No filme, destaque para a cena em q o sequestrador, mesmo drogado, liberta um jovem universitário, para q este possa estudar.

6) “Moacir – Arte bruta”: Extremamente sensível. O diretor Walter Carvalho atinge a perfeição ao trazer um retrato tocante de um artista q contrariou o “pensamento” preconceituoso de sua vila (São Jorge), para inscrever suas pinturas no cenário mundial (foi descoberto por turistas alemães). Seus temas – sexualidade e diabos – causam horror na hipocrisia daquela sociedade, q quase consegue encarcerá-lo, literalmente. A sensibilidade de seu pai e de um ou outro na vila acabam por sustentar seus direitos humanos. Sua mãe, psicotizante, enfiava concretamente seu peito no garoto (Moacir tinha então 2 anos), quando este já não aceitava mais.  É um homem da resistência, surdo de um ouvido, analfabeto e fanho, mas mais belo e forte do q a maioria das pessoas q já conheci. Já utilizei este filme várias vezes em aulas sobre a potência da psicose. Cheguei a visitar o próprio Moacir em São Jorge (Goiás), e encontrei um cenário triste: uma doença degenerativa o impede de continuar pintando. Terrível… Ainda assim, ele foi super gentil. Eternamente um resistente.

7) “Separações”: O melhor de todos os filmes de Domingos Oliveira, um dos melhores diretores brasileiros. Com um escracho generalizado um tanto à la Woody Allen, o humor deste filme é ímpar. Reviravoltas com simplicidade e inteligência nos diálogos, Domingos arrasa todo e qualquer maniqueísmo, trazendo o desamparo e as tentações com igual intensidade entre homem e mulher. O respeito não panfletário à igualdade grita nos conflitos e agonias poéticas e histriônicas dos personagens, flertando com o patético mas encerrando na beleza demasiadamente humana dos casais.

8) “O Invasor”: Belíssimo e extremamente preciso trabalho do diretor Beto Brant. Um tratado de Psicanálise sobre a relação da Neurose com a Perversão. Paulo Miklos (da banda “Titãs”) atua à perfeição como um matador q resolve “frequentar” a firma de 2 sócios q o contrataram para matar o terceiro. Falas inesquecíveis, olhares e tensões de poder minuciosamente colocados. Obra-prima irretocável.

9) “Nome Próprio”: O diretor Murilo Salles atinge o brilhantismo nesta obra impressionante, com um título perfeito. O nomadismo da protagonista incomoda o público, causando em muitos a sensação de q as escolhas da personagem seriam bizarras. Sua liberdade – não glamourizada – evidencia os aprisionamentos até dos espectadores menos preconceituosos. Virtuosismo notável da direção. Ler mais no post “Estilo X Pejorativismo (sobre ‘Nome Próprio’)”, aqui neste blog.

10) “O Cheiro do Ralo”: O maior trabalho da vida de Selton Mello, um dos melhores atores brasileiros (chego a considerar q este filme, especificamente, não seria possível com outro ator). Articular traços psicóticos e perversos num único personagem – tarefa praticamente impossível – foi o q o diretor Heitor Dhalia conseguiu realizar, com precisão impressionante, na parceria com Selton.

11) “Jogo de Cena”: Mais uma obra-prima do diretor Eduardo Coutinho. “Documentário” sobre as histórias de vida de algumas personagens, apresentadas subsequentemente pelas próprias, por algumas atrizes conhecidas – as brilhantes Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão – e outras desconhecidas. Essa “bagunça” desconstrutiva provoca com bastante intensidade a desorganização do espectador. Ficam, entre outras, as questões: o q é o autêntico? O q é ficção? Estes são pontos bastante centrais na filmografia do mestre Eduardo Coutinho.

12) “Doutores da Alegria”: Documentário belíssimo e extremamente emocionante da diretora Mara Mourão, sobre o grupo de palhaços q criaram um trabalho dificílimo com crianças portadoras de câncer. Minuciosamente, os palhaços pensam cada sutileza – a entrada e a saída do quarto, a recusa da criança, a função do nariz vermelho, da música -, inclusive fazendo um grupo de estudos de filosofia, discutindo Spinoza, etc. A sensibilidade e a inteligência dos integrantes do grupo é absurda. A chorar muitas lágrimas de dor e alegria…

13) “Dzi Croquettes”: Excelente documentário dos diretores Raphael Alvarez e Tatiana Issa, sobre o grupo de teatro e dança multi performático. O tema sexualidade era exposto radicalment –  para além da chamada “opção sexual”. A intensidade e genialidade dos membros fez com q não sofressem praticamente nenhuma repressão na época da ditadura. Criativo ao extremo na transmissão da arte. Destaque para os depoimentos de Liza Minnelli e Miéle.

14) “O Som ao Redor”: Filme extremamente denso, desviando nossa atenção dos eixos viciados do nosso olhar, para outras perspectivas. Para além do silêncio – já bastante bem explorado na história do cinema -, o diretor Kleber Mendonça Filho de fato mira o entorno do cotidiano. E o faz com rara qualidade, insistentemente, até q nos desapegamos em definitivo de nossas tendenciosas perspectivas anteriores. A história, geralmente central, fica deslocada para a margem.

15) “Tropa de Elite”: Poderia ser apenas um filme policial intenso e dinâmico, mas vai muito além. Multifacetada trama de costumes, apresenta uma perspectiva de bastidores do sistema policial brasileiro. Com precioso senso de humor, imortalizou bordões como “Quer rir, tem q fazer rir, mano!”, “Quer me fuder, me beija!” e “Cada cachorro q lamba sua caceta!”. Algumas críticas de superficialidade maniqueísta acusaram o diretor José Padilha de traçar um perfil tendencioso pró BOPE, ao q ele retrucou: “Quando fiz ‘Ônibus 174’, disseram q sou pró bandidagem; agora, com o ‘Tropa’, dizem q sou pró polícia. Acho q sou esquizofrênico.”. Pra completar, a ótima atuação de Wagner Moura.